Desafio as pessoas que possuam ingressos para qualquer um dos três shows da turnê brasileira de Morrissey, iniciada na quarta-feira em Belo Horizonte, a roubarem o set list. Deve ser um calhamaço de dez páginas. Afinal, como a inimitável voz, as letras in your face, o topete pós-James Dean, o vegetarianismo militante e o jeito único de cantar, o hábito de batizar composições com frases compridas é mais uma das peculiaridades do ex-vocalista dos Smiths.
Moz não revela o método, mas deve ser assim: escolhe uma estrofe inteira e pronto, está nomeada mais uma canção. Assim, “There is a Light that Never Goes Out” esteve, imagino, a um passo de se chamar “To Die by Your Side is Such a Heavenly Way to Die”.
Em homenagem à nova odisseia tupiniquim do ídolo indie definitivo convertido em hooligan barrigudo, o Mala da Lista preparou um ranking das melhores músicas de nomes intermináveis já escritas por ele.
Como critério técnico, só puderam ser selecionadas faixas cujos títulos são formados por, no mínimo, sete palavras (o que infelizmente exclui maravilhas do quilate de “Some Girls Are Bigger Than Others” e “Heaven Knows I’m Miserable Now”, por exemplo). Ordenadas por quão boas são, e não pelo tamanho.
10-“A Rush And A Push And The Land Is Ours” (1987 – The Smiths)
9-“Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me” (1987 – The Smiths)
8- “How Can Anybody Possibly Know How I Feel?” (2004 – carreira solo)
7-“You Just Haven't Earned It Yet Baby” (1987 – The Smiths)
6-“The More You Ignore Me, the Closer I Get” (1994 – carreira solo)
5-“Please, Please, Please, Let Me Get What I Want (1984 – The Smiths)
4-“Stop Me If You Think You've Heard This One Before” (1987 – The Smiths)
3-“We Hate It When Our Friends Become Successful” (1992 – carreira solo)
2-“There Is A Light That Never Goes Out” (1986 – The Smiths)
1-“The Boy with the Thorn in his Side” (1986 – The Smiths)
Que Meryl Streep é tricampeã e o cinema mudo voltou a ser bacana vocês já sabem. Mas talvez não tenham parado para pensar a respeito da quantidade de boas canções que existem por aí sobre atrizes e atores.
Ficam de fora, portanto, as que supostamente se referem a eles (“Tigresa”, de Caetano, que seria sobre Sônia Braga, ou “She Said She Said”, dos Beatles, um recado lisérgico sobre a morte possivelmente dado por Peter Fonda a John Lennon). Algumas musas ganharão especial algum dia, de tantas vezes que já foram citadas em músicas (Brigite Bardott, por exemplo).
10-Madonna x vários – “Vogue” (1990)
Um pouco antes de virar a monotemática da safadeza – a fase “Erotica” – Madonna se interessou pelo glamour dos anos dourados de Hollywood. Sobre base house, ela presta seus respeitos aos seguintes galãs e musas (“eles tinham estrela, tinham graça”, diz): Greta Garbo, Marylin Monroe, Marlene Dietrich, Marlon Brando, James Dean, Grace Kelly, Jean Harlow, Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rodgers, Rita Hayworth, Lauren Bacall, Katherine Hepburn, Lana Turner, Bette Davis.
9- Fountains of Wayne x Christopher Walken – “Hackensack” (2003)
Em uma tipicamente bem sacada letra destes americanos, o sujeito sofre de saudades de uma garota que conhece desde sempre da pequena cidade de Hackensack. Agora, porém, se sente tímido para abordá-la, já que a moça se deu bem em Hollywood e a última vez que ele a viu foi “conversando com Christopher Walken” na cena de um filme.
8-Zeca Baleiro x Stephen Fry – “Stephen Fry” (1997)
Eu sei, o arranjo é brega, exemplar da mais acomodada das MPBs. Sei também, Baleiro “canta como o Pelé”, tal qual resenhou certa vez o jornalista Fabio Bianchini. Mas a ideia de buscar no aparente sumiço do desajeitado humorista britânico o argumento de uma canção – e de um disco – é sensacional.
7-Bauhaus x Bela Lugosi – “Bela Lugosi is Dead” (1979)
Foi o alemão Max Schreck o ator quem, segundo a lenda, nunca mais desencarnou do papel de Drácula. Mas a possivelmente mais clássica interpretação do vampirão, a cargo do húngaro Bela Lugosi(1882-1956) em “Nosferatu” (1922) também foi, de certa forma, eterna. O cara pediu para ser enterrado com a capa, só isso. Não à toa virou assunto para o primeiro hit do rock gótico.
6-The Thrills x Corey Haim – “Whatever Happened to Corey Haim” (2004)
Aborda os anos desencontrados de Corey Haim, ator infantil de grande sucesso nos anos 80 – era um dos “Garotos Perdidos”, lembram? – que, uma vez adulto, desandou como tantos outros de sua espécie. A ótima canção, que soa mais alegre do que o tema sugere, foi profética: Haim morreu em 2010, com apenas 38 anos, após overdose de remédios.
5-Bob Dylan x vários - “I Shall Be Free” (1963)
Para Dylan, os Estados Unidos só seriam grandes mesmo se certas beldades cinematográficas fossem “importadas” em caráter definitivo: Sophia Loren (Itália) Brigitte Bardot (França), Anita Eckberg (Suécia). Para dizê-lo, Bob se imagina recebendo uma hipotética ligação telefônica de John F. Kennedy, que lhe pergunta sobre a questão. Dois outros “gringos”, o galês Richard Burton e a inglesa Elizabeth Taylor, também são mencionados. A última, como parceira sexual fantasiosa do autor.
4-Antònia Font x Clint Eastwood– “Clint Eastwood” (2011)
Da rara estirpe dos que conseguem encaixar o catalão em músicas bonitas e com letras inteligentes – ainda por cima o fazendo em dialeto maiorquino -, a banda Antònia Font celebra aqui a rudeza afável de Clint Eastwood em sua faceta ator (“faz anos que você não toma banho”). Uma menção honrosa a Morgan Freeman (“o negro de ‘Million Dolar Baby’”) se posiciona entre os refrões, que decretam (“I un home tot sol no sempre se basta” – “um homem só nem sempre se garante”) e depois perguntam (“qui dubta avui en dia d'en Clint Eastwood?” – “quem duvida hoje em dia do Clint Eastwood?”).
3-The Clash x Montgomery Clift – “The Right Profile” (1979)
“Em meio a bandidos e cafetões/ Monty Cliff é reconhecido na madrugada/ Sem os sapatos e com as roupas rasgadas”. Assim o Clash tratou a decadência do ídolo que sempre viveu outsiders no cinema. Dizem que, depois de um acidente de carro terrível em 1956, Montgomery Clift foi ladeira abaixo, se entupindo de drogas e se metendo em encrencas. Morreu dez anos depois.
2-Kim Carnes x Bette Davis e Greta Garbo - “Bette Davis Eyes” (1981)
A letra do grudento hit oitentista – cujo clipe é espetacularmente cafona – usava os “suspiros de repulsa de Greta Garbo, e os olhos de Bette Davis” para descrever uma certa killer lady e eternizar-se nas pistas. Lado a lado, naturalmente, com o verso “She’ll unease you”, que em bom virundum português soa perfeitamente como “Chico Anísio”.
1-R.E.M. x Martin Sheen, Steve MacQueen e James Dean – “Electrolite” (1996)
“Hollywood is under me /I'm Martin Sheen / I'm Steve McQueen /I'm Jimmy Dean”. Quando o R.E.M. se inspirava, era difícil de segurar. Ainda mais sobre uma “daquelas” melodias. Michael Stipe conta que, pouco antes do lançamento do disco que contém a faixa, “New Adventures in Hi-Fi”, encontrou Martin Sheen no dentista. Contou ao protagonista de “Apocalypse Now!” que o citaria em uma canção-tributo e recebeu o aval ali mesmo. Não sem antes Martin encher a boca de água, embochechar e cuspir na minipia ao lado da cadeira.
Virou tradição. O post de Carnaval do Mala da Lista já está para este blog como a Neosaldina para os foliões (dá vontade de colocar um link sobre a palavra “Neosaldina”, de tão fã que sou deste analgésico milagroso). Em 2010 escancarou-se toda a nudez, castigada ou não, de algumas das capas de disco mais desinibidas da avenida; “Fechando na Prochaska” foi o samba-enredo do ano seguinte, homenageando o esplendor e a glória das melhores virilhas que, como luxuriantes carros abre-alas, estampam em encartes. Para a terceira edição do baile carnavalesco, resolvi pegar leve, voltando às origens da ancestral festa pagã: as máscaras. De artigo de fetiche nos (ba)canais de Veneza a indumentária pornô em salões do litoral brasileiro, elas de certa forma ainda simbolizam o Carnaval, como a bunda de fora ou o Pedro Bial narrando breaco o desfile da “Caprichares de Pilosos” em 2000. E claro que, por serem algo tão clássico, as máscaras foram parar também na cara de artistas dos mais extravagantes na hora de posarem para capas de discos. Algumas são históricas. Apreciem e não se esqueçam: ziriguidum, telecoteco. *Não valem álbuns da banda Slipknot, mascarada supostamente 24 horas por dia, 365 dias ao ano.
10-The "You Know Who" Group – “The ‘You Know Who’ Group” (1965)
Grupo efêmero montado nos EUA para tentar imitar as bandas inglesas até no sotaque, chega a soar bem, mas com tão pouca autenticidade que os músicos tiveram que se disfarçar de Zorro.
9-Tricky – “Knowle West Boy” (2008)
Na alfândega entre o clima “Eyes Wide Shut” da foto lá de cima e a luta livre mexicana.
8-Eurythmics – “Touch” (1983)
O esgrima imaginário de Annie Lennox pedia adereços. E muita tinta no cabelo.
7-Björk – “Medúlla” (2004)
Não fica claro, mas me parece uma máscara feita com cabelo. O que seria bem bjorkiano.
6-Steve Miller Band – “The Joker” (1973)
Legal, mas não a ponto de figurar como a 83ª capa mais legal da história, como já disse a Rolling Stone.
5-Soft Cell – “The Art of Falling Apart” (1983)
O dramatismo da geração synthpop rendia muito exagero estético, mas também alguns belos momentos.
4-Joan Baez - Blowin’ Away (1977)
Se eu disser que não é a única capa com um artista usando máscara de aviador, periga que vocês não acreditem. Mas tanto é verdade que até renderia um top 5, cavocando bem. Com esta em primeiro lugar, claro.
3-John Cale – “Guts” – (1977)
“Oh, he’s a grumpy old man”, me disse minha amiga Sinéad sobre o ex-Velvet Underground, após emprestar-lhe backing vocals em show. Por “grumpy” entenda-se “ranzinza”, “rabugento”. O que não condiz muito com o senso de humor de Cale na década de 1970, quando combinar macacão Jedi com máscara do Jason, empunhando uma guitarra em Flying V, era apenas um detalhe. Só para quem tinha, é verdade, “guts”.
2-Ney Matogrosso – “Ney Matogrosso” (1975)
-Dêem-me um disco solo e eu serei capaz de tudo.
-Isso inclui se fantasiar de ave de rapina, com cobras e penachos saindo do sovaco?
-Claro.
-Contratado, Ney.
1-Captain Beefheart & The Magic Band – “Trout Mask Replica” (1969)
Para superar uma máscara cujo objetivo é emular um ou mais animais, só mesmo “vestindo” o próprio bicho. Caneco indiscutível para o truta Beefheart.
Em “Eu Sabia que isso ainda ia acontecer”, primeiro texto que publiquei em minha extinta coluna Massa Sonora, no site da MTV, há exatos 10 anos e oito dias, eu me espantava com o então emergente revival oitentista. Também tentava desenvolver a teoria de domínio público segundo a qual cultua-se, misteriosamente, sempre duas décadas para trás. Eu sou prova viva: bailei twist nos 80, curti um funk setenteiro nos 90 e, embora ao escrever aquele texto ainda achava meio absurda a volta do synth pop e das ombreiras, não muito tempo mais tarde assumiria as baquetas do Jumbo Elektro.
Pois a tal teoria continua valendo. E ousaria acrescentar mais um argumento: é no ano “2” (o terceiro de um decênio, por tanto), que o resgate começa a pegar. Os sintomas vão além das camisas xadrez em coleções de moda, ou os rabos-de-cavalo e barbichas que andam crescendo nas redondezas. Por exemplo, o Primavera Sound, melhor festival de música de Barcelona (ocorre entre o fim de maio e o começo de junho), é destes que sempre puxa um cordão, antecipando modinhas.
E, se nas últimas edições já vinha oferecendo lapadas de britpop, grunge e trip-hop, para 2012 preparou uma verdadeira escalação-manifesto em homenagem aos anos 90, com Mazzy Star, Guided By Voices, Afghan Whigs, Mudhoney, Melvins, Björk, Yo La Tengo e outros. Até o Cure, um dos nomões do evento, celebrará os vinte anos de seu álbum “Wish”. Tributo semelhante ao que o Helmet – grupo noventeiro por excelência – fará com a pedrada “Meantime” em show previsto para março.
Será, admito, um revival fácil de abraçar. Foi nos 90 que minha geração passou da adolescência para a er... idade adulta, a época em que, para quem gosta de música, a cobra - tá bom, não só a cobra - começa a fumar. Sendo assim, só resta ao Mala da Lista relembrar aqui 10 razões musicais para amar, ou voltar a amar aqueles anos. Na forma de álbuns gringos que eu, você e todo mundo precisa (re) escutar. Acompanham clipes ou registros ao vivo da época, para a imersão estética ficar completa.
10-Faith No More – “Angel Dust” (1992)
Metal torto, quase cubista, para se ouvir em cabarés. Resultado do encontro de imaginação, humor e coragem com som pesado.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Nine Inch Nails - “Downward Spiral” (1994).
9- Public Enemy – “Fear of a Black Planet” (1990)
O elo perdido e abençoado entre o hip-hop mais naïve e a farofada gangsta era simples e mortal: batidas de James Brown, ruídos infernais, política e pau em todo mundo, de Hollywood a Elvis.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: The Roots - “Things Fall Apart” (1999).
8-Beck – “Odelay” (1996)
Um muito de tudo misturado e mais um pouco. Ainda assim, de uma originalidade absurda.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: DJ Shadow – “Entroducing...” (1996)
7-U2 – “Achtung Baby” (1991)
Na guilhotina da virada da década, ninguém teve tantos colhões para mudar quanto esta banda. Que, abraçando a malícia dançante e a auto-paródia psicodélica, continuou grandiosa.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Depeche Mode – “Violator” (1990).
6-Nirvana – “Nevermind” (1991)
Descontada a lenda, é uma espécie de disco-resumo do que foi a primeira metade da década.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Teenage Fanclub - “Bandwagonesque” (1991).
5-My Bloody Valentine – “Loveless” (1991)
A invenção das guitarras em 3D.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Sonic Youth – “Dirty” (1992)
4-Massive Attack – “Mezzanine” (1998)
Caso o mundo tivesse acabado mesmo em 31 de dezembro de 1999, a trilha sonora estava pronta. E teria sido bonito.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Portishead - “Dummy” (1994).
3-Radiohead – “OK Computer” (1997)
Atualização sonora das paranoias do final do milênio, que de quebra antecipou a década seguinte. Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Tortoise - “TNT” (1998).
2-Red Hot Chili Peppers – “Blood Sugar Sex Magik” (1991)
O encontro da então melhor banda ao vivo do mundo com o produtor dos últimos 25 anos (Rick Rubin). Numa mansão assombrada em Hollywood.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Fishbone - “Give a Monkey a Brain... and He’ll Swear He’s the Center of the Universe" (1993).
1-Beastie Boys – “Check Your Head” (1992)
Tudo o que o hip-hop, ou a música em si, pode ser quando nas mãos de criadores geniais e desrespeitosos a barreiras de estilo.
Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Urban Dance Squad - “Life n’Perspectives of a Genuine Crossover” (1991).
As liquidações espanholas, iniciadas esta semana, são mesmo tudo isso o que falam. É camisa de 5 euros para um lado, sapato de 15 para o outro. Sem exageros, refaz-se aqui um guarda-roupas com o que se gastaria em uma única peça em lojas metidas de São Paulo.
Por estas e por outras, as rebajas, ou rebaixes, em catalão (ou ainda “rebarbas”, como rebatizou involuntaria mas genialmente minha querida sogra Bia) acabam sendo uma atração turística por si só no bajón do inverno europeu. Verdadeiros “motivos para soltar rojões”, nas palavras de minha grande irmã Adriana neste post sobre o assunto em seu blog.
De tão humana, a ânsia consumista – seja com 50% desconto ou não – não passa despercebida por compositores, tampouco por criadores de encartes de discos. As canções ficam para outra lista; por hora visitamos as dez melhores capas que discutem/homenageiam/criticam o consumismo, ilustradas em lojas, mercados, produtos ou outras referências no contexto.
10-Barão Vermelho – “Puro Êxtase” (1998)
O que as pessoas não fazem quando bate a vergonha alheia (no caso da moça, pela tentativa de fazer música eletrônica do Barão).
9-The Small Faces – “Me, You and Us Too” (1999)
Fosse no Brasil, a capa desta coletânea dos ingleses empacaria nos tribunais. Ou a Ambev, dona da Pepsi, liberaria sua Skol para posar ao lado da Coca-Cola?
8-Beastie Boys – “Paul’s Boutique” (1989)
Inspirados em um anuncio que escutavam em uma mixtape de música jamaicana, Mike D, Ad-Rock e MCA quiseram criar uma loja com o mesmo nome, e que “vendesse” objetos que representassem o conceito (revolucionário) do álbum, um eclético saco de gatos de samples remendados. Mandaram fazer a placa “Paul’s Boutique” e usaram o bazar Lee’s Sportswear, no Lower East Side, de Nova York, na sessão de fotos comandada por Jeremy Shatan.
7-Gilberto Gil – “O Sol de Oslo” (1998)
Vale mais pelo carrinho de côcos em si do que sua ideia subentendida, a de tentar formar a bandeira do Brasil com as frutas.
6-Gruff Rhys – “Hotel Shampoo” (2011)
Não sei, mas esta coleção deve ter sido acumulada no tempo em que a banda de Rhys, o Super Furry Animals, subia ao palco vestida em enormes trajes de pelúcia. Nas emergências de palco – leia-se cusparadas, vômitos e latas de cervejas atiradas nos big bichanos – um xampuzinho guardado no bolso não ia nada mal.
5-Tom Zé – “Grande Liquidação” (1968)
Credita-se a uma certa Oficina Programação Visual SP esta capa que, como a música do gnomo de Irará, antecipava uma estética em algumas décadas.
4-Eli “Paperboy” Reed – “Come and Get It!” (2010)
A música do neo-soulman Reed é mais suja do que esta fotografia insinua. O que não influi em nada no quão bacana é a capa.
3-The S.O.S. Band – “The S.O.S. Band III” (1982)
Poderiam ter produzido uma estante menos fake, mas a linha de produtos S.O.S., a pinta do sujeito de espanador na mão e, principalmente, a pernuda de polainas contorcida no carrinho garantem a diversão visual.
“Foi aqui que pediram um gênio cego da música afroamericana?”. Projeto de Curtis McNair, autor de capas de outros clássicos da Motown, como “What’s Going On” de Marvin Gaye e “Psychedelic Shack”, dos Temptations.
1-The Who – “The Who Sell Out” (1967)
David Montgomery, o fotógrafo responsável por esta portada eterna, admitiu anos depois que estava morrendo de medo do que a combinação The Who + ensaio envolvendo comida poderia gerar. Em 1967, a reputação da banda era possivelmente a pior de toda a fauna rock. Para sua perplexidade, porém, os quatro mods se comportaram bem. Segundo Montgomery, o vocalista Roger Daltrey quase pegou pneumonia depois da sessão, de tanto que permaneceu pacientemente na fria megafeijoada na qual mergulhou. A enorme lata Heinz depois viraria mesa da casa do fotógrafo.
Sempre achei especialmente curiosos os argumentos de clipes musicais baseados em artistas comendo. Em geral, estas produções vão além do arroz com feijão, gerando momentos de alta gastronomia visual.
Na semana entre o Natal e Réveillon – esta mesmo, a que corresponde ao apogeu de nossos excessos culinários durante o ano - o Mala da Lista preparou um cardápio especial para a Virada: um menu degustação com cinco vídeos estrelados por músicos glutões. Se não servirem para abrir o apetite, no mínimo emocionam ou arrancam gargalhadas.
Bom apetite.
5-Bjork – “Venus as a Boy” (1993)
Coube a Sophie Muller, diretora com mais de uma centena de videoclipes no currículo, transformar em fetiche não apenas a barriguinha de fora da gnoma do gelo, mas também o simples fritar um ovo. Frigideira em punho, a gnoma do gelo faz dengo, acaricia um lagarto e canta toda sonhadora sobre a fantástico arranjo “Bollywood” de Talvin Singh.
4-Blur – “There’s no Other Way” (1991)
Engana-se quem pensa que os almoços dominicais ingleses se resumem a fish and chips. No banquete da Família Blur há espaço para uma apetitosa torta com molho e almôndegas, otimistas prenúncios para a apoteose final: o tremelicante bolo de vários andares que, iluminado entrecortadamente no melhor estilo David Lynch, tem pinta de nave espacial.
3-Ramones – “I Wanna Be Sedated” (1979 – clipe de 1988)
Para promover a coletânea “Ramonesmania”, Bill Fishman, diretor de comédias televisivas de pouca repercussão, pediu aos Ramones que ficassem por algumas horas sentados, imóveis, em uma mesa de café da manhã. Dee Dee, sempre o mais cool, até lê um comic, enquanto vários enfermeiros, uma freira, um super-homem inflável e até mesmo um tocador de gaita de fole circulam com histeria ao redor dos quatro.
2-Asian Dub Foundation e Sinéad O’Connor – “1000 Mirrors” (2003)
O vídeo dirigido pelo francês Henri-Jean Debon é impactante. Convidada estrangeira a um jantar de uma família indiana, a norte-irlandesa Sinéad pede a palavra. E canta a terrível história da paquistanesa Tsoora Shah, condenada a vinte anos de prisão por envenenar e matar o segundo marido que, como o primeiro, a espancava e violentava, além de obrigá-la a se prostituir. No começo, os anfitriões – aos quais se incluem integrantes do ADF - não dão bola à carequinha, fingem não ouvi-la e até fazem boba coreografia. Após o primeiro refrão, porém, o clima “baixastraliza” e a mesa silencia, enquanto O’Connor questiona o calvário de Tsoora.
1-Weird Al Yancovic – “Eat It” (1984)
Não é à toa que quase todos os astros parodiados por Weird Al se dizem seus fãs (são raros os casos de gente que não autorizou suas sátiras). Michael Jackson, um dos principais alvos do humorista, até indicava os sets originais de seus clipes para que o célebre nerd de bigode e óculos pudesse utilizar. Foi o caso de “Eat It”, paródia do clássico “Beat It” que, além de contar com letra hilária (“You won't get no dessert 'till you clean off your plate/ So eat it” é apenas um aperitivo) e reproduzir quadro a quadro o vídeo de Michael, também foi fidelíssimo quanto a figurino, fotografia e o aspecto dos atores (não sei, mas creio que os principais foram os mesmos). Uma superprodução galhofeira que atinge seu clímax na famosa cena de luta entre gangues: os chefes dos bandos duelam “atados” por um frango de borracha.
Se no Japão o próximo domingo é dia de celebrar o futebol-arte, com Messi e Neymar prometendo o embate mais ofensivo da história, aqui no Mala da Lista, direto da terra do Barça, é tempo de inverter os papéis, homenageando as “capas-arte” de discos com inspiração nipônica.
Lindas, elas atestam o fascínio do mundo pop pelo país do sol nascente.
*Não valem, claro, artistas japoneses; nem as dezenas de álbuns “Live in Japan”, “Live in Tokyo” ou os clássicos “Live at Budokan”; tampouco as infinitas edições especiais japonesas de qualquer disco.
10-Alphaville – “Big in Japan 1992 AD” (single – 1992)
Começamos pelo básico. De quando a banda alemã, não vendo mais alternativas de volta ao topo das paradas, remixou um de seus dois únicos hits.
9-Beat Culture – “Tokyo Dreamer” (2011)
Espécie de pós-trip-hop, pós-Lost in Translation. É mais ou menos assim o som deste grupo americano. E mais ou menos assim a capa.
8-Mogwai – “Young Team” (1997)
Dada a melancólica abstração instrumental do quinteto escocês, não faltariam suposições sobre a profundidade do que está escrito neste painel. Mas, em típica pegadinha do Mogwai, quer apenas dizer “Banco Fuji”.
7-Japan – “Adolescent Sex” (1978)
Entre o glam ao new romantic, tudo indica que a escala era no Japão.
6-Wayne Shorter – “Speak no Evil” (1965)
Perrrdeu, Yoko Ono. Você não foi a primeira esposa japonesa a se intrometer em capas de disco de músicos internacionalmente consagrados. Teruka Nakagami, primeira mulher de Wayne Shorter, é a verdadeira pioneira.
5-Antony & the Johnsons – “The Crying Light” (2009)
E por falar em pioneirismo, este cidadão aí na foto é Kazuo Ohno, falecido em 2010 aos 103 anos. A ele se atribui o desenvolvimento da hermética, cerebral e pitoresca dança performática japonesa conhecida como Butoh (ou Butô). O belo retrato é de 1977.
4-Steely Dan – “Aja” (1977)
Minimalismo e delicadeza são clichês usados para definir a “estética japonesa”. Pois aqui se aplicam, não?
3-Bjork – “Homogenic” (1997)
Alexander McQueen, estilista britânico que se suicidou no ano passado, foi o responsável por transformar Björk numa espécie de gueixa-fada, uma “guerreira do amor”, conforme lhe brifou a islandesa à época. O resultado ajudou a dar a cara lírica e emotiva que o conteúdo do álbum pedia.
2-Sparks – “Kimono My House” (1974)
Como disse o finado crítico musical Ian MacDonald, “a moça da esquerda está escutando ‘Kimono My House’ pela primeira vez”. Devia estar mesmo. Ô, disco estranho (e interessante).
1-Sigue Sigue Sputnik – “Flaunt It” (1986)
Pois já que tocamos no assunto, a minha cara foi uma mistura das expressões das duas gueixas do Sparks acima quando ouvi Sigue Sigue Sputnik em uma festinha de meu prédio nos anos 80. Quando me mostraram a capa, então... o que poderia ser mais legal do que uma banda que homenageia os heróis trash da TV japonesa, aqueles mesmos que assistíamos na Record (SBT?) em seus discos?
Tremula sobre a Calle Blai, artéria do bairro barcelonês do Poble Sec, a bandeira alvinegra do Corinthians.
Eu poderia teorizar sobre os mistérios que levam as conquistas do pentacampeão brasileiro a serem sempre tão sofridas, emotivas e neurotizadas pela superstição (jamais me aventuraria a deixar um post como este pronto antes do resultado, por exemplo). Algo que em 2011elevou-se à quinta potência com a morte de Sócrates no preciso dia da rodada final, e seu enterro simultâneo ao embate contra o Palmeiras.
Poderia chorar as pitangas de maloqueiro sofredor expatriado, condenado a atravessar madrugadas trocando erráticos SMSs com filiais da Fiel que vão de Valência a Dubai, à procura do link imperfeito. Que quase sempre resulta em imagens cruelmente pixeladas e lances visualizados em arrancos de cachorro atropelado. Na melhor das hipóteses, nos permitem assistir às partidas achando normal confundir Liedson com Willian.
Ou poderia, então, contar sobre quando todo este espírito de dramalhão mexicano entrou de forma irreversível em minha vida, no dia seguinte a uma reunião de pais na Pré-Escola, em 1985. Atropelando o protocolo, meu pai preferira deixar um bilhete - lido à classe pela professora diante de uivos generalizados e um pequeno mosqueteiro ruborizado - com os dizeres “VIVA O CORINTHIANS!!!”, a elogiar os meu desenhinhos, como fizeram todos os demais responsáveis.
Mas não. É dia de festejar sem muito blablablá, ao som de dez canções sobre o Coringão – duas para cada Brasileirão abocanhado -, ou com referências apaixonadas ao clube banhado pela Marginal Tietê (há algo mais corintiano do que isso?). Os melhores trechos das letras vêm em destaque. Só valem compositores “civis”, portanto excluem-se centenas de gritos de torcida – tipo “quem não for corintianuuuuuu, vá pra puuuuuta, que o pariu” -, nem os enredos da escola de samba Gaviões da Fiel. Também fica de fora o maravilhoso hino, sobre o qual ainda falaremos aqui.
Vai, Corinthians.
10-Jackson do Pandeiro – “Bola de Pé em Pé” (1981)
A música em princípio era sobre o Flamengo, mas o Rei do Ritmo não resistiu:
Em São Paulo eu sou Corinthians /Eu adoro o Timão
9-Negra Li e Rappin’ Hood – “Sou Corinthians” (2010)
No centenário, um verdadeiro beabá de guerreiros e suas proezas:
O gol de Viola/O chute de Basílio/ A classe do Doutor e a fé de Marcelinho
8-Xis – “Chapa o Côco” (2001)
Clássico, Timão contra us porco/ Eu vou pru estádio/ Na vitória na derrota eu to do mesmo lado
7- Demônios da Garoa – “Coríntia (Meu Amor é o Timão)” (???)
Adoniran Barbosa, o autor da canção, prestava também sensacional tributo à Zona Leste de São Paulo:
Como é bom ser alvinegro/ ontem, hoje e amanhã /Respirar o ar mistura /Do Tietê a Tatuapé
6-Branca de Neve – “Garra Corintiana” (1989)
Composta com um cidadão chamado Luiz Carlos Xuxu:
Vai, vai, vai/ São Jorge vai nos ajudar /Vai, vai, vai/ São Jorge também vai jogar
5-Rita Lee – “Amor em Preto e Branco” (1972)
Com Arnaldo Baptista, Rita desabafou sobre a tortura do jejum sem títulos:
Por que será que eu gosto de sofrer?/ Vai ver que agora eu dei pra masoquista /Meu amor branco e preto/ Às vezes me deixou na mão.
4-Paulinho Nogueira e Toquinho – “20 Anos de Espera” (1974)
Antes do “Vai Corinthians” houve o “Ai Corinthians” de quem espero 23 anos por um caneco:
Quantos domingos sombrios / Eu, eterno sonhador /Chegava em casa arrasado / Maltratava o meu grande amor
3-Gilberto Gil – “Corintiá” (1984)
Gil sabe o suficiente de futebol:
Ser corintiano é decidir/ Que todo ano a gente vai sofrer /Se enrolar no pano da bandeira/ E reclamar se o time não vencer
2-Sílvio Santos – “Transplante Corintiano” (1968)
É, tem sim algo mais corintiano do que a sede ser na Marginal Tietê: o Sílvio Santos cantando uma marchinha de carnaval sobre o time (composta por Ruth Amaral, Manoel Ferreira e Gentil Junior)
Doutor, eu não me engano / Meu coração corintiano
1-Toquinho – “Corinthians do Meu Coração” (1983)
Diretamente do navio do centenário. E salve-se quem puder:
Corinthians do meu coração / Tu és religião de janeiro a janeiro / Ser corintiano é ser além/ De ser ou não ser o primeiro