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quinta-feira, 3 de março de 2011

Virilhas em fúria



No Carnaval do ano passado, os álbuns com capas estampadas por peladões foram tema de Ziriguidum, Telecoteco, samba-enredo-post do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Lá Vem o Mala da Lista.

Mas como o ímpeto dos artistas por escandalizar visualmente não se restringe às manifestações de nudez, o blog escolheu para a versão 2011 de sua folia um ranking que não faria feio numa exposição no baile do Ilha Porchat Clube.

Estamos falando delas, as virilhas, que também adoram comparecer como destaque não só na Sapucaí, mas também numa boa capinha de disco. Dizem que a bunda é a paixão nacional. Mas a julgar pela presença de nomes brasileiros nesta lista, a nossa obsessão pela região pubiana pode competir de igual para a igual com o afã pela glútea (a qual homenagearemos mais para frente). Popozudas, tremei!



10-Cássia Eller – “Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo” (1999)



Na comissão de frente, Cássia Eller trocando os habituais jeans surrados por um momento mais... Hope. Ou Zorba, quem sabe. Memorável.



9-Montrose - “Jump on It” (1976)


O bloco caminha com nota 10 em harmonia. Com direito a um farto close, a cargo da banda que Sammy Hagar tinha antes do Van Halen.


8-Queens of the Stone Age – “Queens of the Stone Age” (1998)



Abram alas para uma candidata a Rainha da Bateria...


7-The Rolling Stones – “Sticky Fingers” (1971)



...ou para Andy Warhol, que também quer cair no samba. É do guru popartista esta ode à calça apertada, que teve até versão com zíper de verdade protuberante.

6-Ney Matogrosso – “Mato Grosso” (1982)


Jeans separador de testículos? Não conte com o velho Ney, militante do MELV, Movimento Enxaguador e Libertador e de Virilhas.

5-Caetano Veloso – “Araçá Azul” (1972)


E não espere menos de Caetano ,que, preocupado com o quesito alegoria trouxe até um espelho para acertar o cavamento.

4-Black Crowes – “Amorica” (1994)


Reza uma lenda urbana do Esquindô-Esquindô que, na transmissão de um desfile de Escolas do Rio nos anos 1980, um diretor de TV da Globo emitiu a seguinte ordem a um cameraman: “foca na Prochaska”. Ele se referia, ora-mas-é-claro, à atriz Cristina Prochaska, que requebrava na passarela. Na interpretação do cinegrafista, porém, “prochaska” significava tudo menos um sobrenome vindo do Leste Europeu, e a imagem resultante foi algo mais ou menos assim.

3-Gal Costa – “Índia” (1973)


Os Doces Bárbaros não estavam mesmo para brincadeira naqueles tempos. Um ano após ver seu amigo caetanear a sunga, Gal respondeu prochasqueando a tanga. Ou algo do gênero.

2-The Charque Side of the Moon – “The Charque Side of the Moon” (2008)


O repertório de “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, transposto para ritmos do Pará, foi pouco. Para seu idealizador, Luiz Felix, era preciso colocar mais coisas em seus devidos lugares. A começar pelo famoso triângulo prismático.

1-Ringo Starr – “Ringo The 4th”


Se estivéssemos presos ao quesito evolução, a tendência é que este primeiro lugar fosse abocanhado por alguma trilha sonora de filme pornô ou audioguia de aula de anatomia. Mas o caneco vai para Ringo, que se não conseguiu até hoje fazer sucesso em carreira solo, pelo menos pode dizer que algum dia investiu no quesito fantasia para, de espada em riste, mostrar quem é que manda quando o assunto é virilha.

*Siga este blog também pelo twitter: @maladalista

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Frontmen e Sidemen






Outro dia, pouco antes da virada de década, assisti aqui em Barcelona a uma dobradinha de shows Little Joy-Devendra Banhart. Os dois foram bons, e descontando a graça da Binki Shapiro e a presença sensacional de Devendra, diria que o destaque foi Rodrigo Amarante. Voz principal do Little Joy – a tímida Binki canta pouco e o Stroke  tranquilão Fabrício Moretti serve mais de um cartão de visitas do que qualquer outra coisa -, o ex-Hermano foi bem no papel de frontman bilíngue e depois ainda voltou para compor a banda de Devendra, da qual é integrante.


Fiquei pensando que este estilo pau-para-toda-obra daria uma boa lista de caras que, mesmo após consolidados como centro das atenções, atuam como sidemen. Vejam bem, não se tratam de duetos, mas sim colaborações do tipo “X tocando guitarra no disco de Y, ou fulano tocando bateria na turnê de beltrano”. E não demorou a se formar um novo top 10, cujo critério é o quão interessante resultaram as colaborações. Pois nem sempre um gênio tocando com outro significa que escutaremos o melhor som de todos os tempos. Jazzistas e rappers, escolados em ser o apoio de outrem, ficam de fora da lista.


10- Stevie Wonder com Jimi Hendrix – “I Was Made to Love Her” (1967)

Em 1967, Stevie Wonder ainda era um adolescente, mas já desfrutava de meia década de prestígio como o grande astro juvenil da Motown (posto que ele deixaria logo depois aos Jackson Five). E ele continuava sentindo o mesmo prazer de sempre em tocar os vários instrumentos que dominava, sem se importar em permanecer anônimo nos créditos. Ao longo de seu quase meio século de carreira, Wonder participaria de dezenas de álbuns sem precisar emprestar sua marca registrada, a voz. Só que esta gravação do gênio cego tocando bateria em uma jam session perdida de Jimi Hendrix é arqueologicamente imbatível. Ainda que não tenha ficado especialmente bom o resultado – sensacional também como baterista, Stevie deixa o ritmo desandar em alguns momentos, provavelmente por causa do nervosismo citado pelo narrador.





9-Eric Clapton com John Lennon e cia – “Yer Blues” (1968)

Quando os Stones organizaram o especial “Rock and Roll Circus”, em 1968, Eric Clapton era, entre os convidados, o mais experiente. Tocara com John Mayall e Yardbyrds e já fundara e dissolvera o Cream, com o qual se promovera a frontman (ao lado de Jack Bruce). No entanto, tocar guitarra ainda era o que lhe movia. E aqui ele o fazia melhor do que em boa parte de sua carreira solo – dizem que perdeu o talento quando parou com as drogas. Tanto que, na superbanda que acompanha John Lennon na pedrada “Yer Blues”, dos Beatles, couberam a ele, e não a Keith Richards, a guitarra que faria os solos.






8-Edgar Scandurra com Arnaldo Antunes – “Judiaria” (2007)

Em material de música paulistana, ou de rock brasileiro, Scandurra é o cara. Não é a toa que um leque de colaboradores tão eclético – de Jorge du Peixe a Guilherme Arantes – tenha atendido rapidamente a seu convite para participar de um recente DVD. O canhoto mais célebre do BRock esteve em algumas das bandas mais marcantes do underground de SP – Mercenárias e Smack -, no Ultraje a Rigor e do Ira! (do qual era a figura principal), além de lançar bons trabalhos solo, mais acústicos nos anos 80 e mais experimentais com o Benzina a partir da década seguinte. E já tinha todo este currículo quando foi ser o sideman de Arnaldo Antunes nos primeiros anos da carreira solo do ex-Titã, iniciada em 1992. Caiu como uma luva.





7- Gilberto Gil com Caetano Veloso – “Irene” (1969)

Com ou sem Bethânia e Gal, Gilberto e Gil e Caetano Veloso já assinaram vários discos juntos. Mas Caê també utilizou os dotes de bom músico do amigo para encorpar seu som no estúdio. Ou seja, em algumas ocasiões, Gil foi apenas um instrumentista em gravações de Caetano. “Irene” é uma das melhores, com o violão impecável e o backing vocal inconfundível do futuro ministro. Cabeção, ele esquece de cantar uma parte e a canção recomeça no mesmo take.





6-George Harrison com John Lennon – “How do You Sleep?” (1971)

Ringo, o boa-praça official, gravou fartamente com os três ex-companheiros de Beatles e os recebeu em vários de seus álbuns solo; os amigos de infância George e Paul intercambiaram colaborações discretas; John e George também mantiveram o laço. Faltou só a que todo mundo mais esperava, entre John e Paul. Aqui, uma das trocas de figurinhas mais notáveis entre os fabulosos no periodo pós-dream is over: George dedilhando sua inigualável guitarra e aparentemente tomando partido em “How Do You Sleep?”, que Yoko e todo o imaginário pop juram se tratar de um ataque direto a McCartney. Embora o próprio Lennon tente explicar no vídeo quem é o verdadeiro alvo da canção.





5-Billy Corgan com New Order - "Turn My Way" (2001)

Não encontrei na net videos da turnê que o New Order fez com Billy Corgan na guitarra nos idos de 2001. O que torna este item um dos mais mitológicos desta lista. Teremos que usar nossa imaginação para escutar a guitarra indie que definiu os 90 preenchendo o som que é sinônimo da magia pop da década anterior, até que uma boa alma nos alivie com algum registro daqueles shows. Como consolo, nos sobra a música “Turn My Way”, que traz participação vocal de Corgan. Do disco “Get Ready”, editado pelo NO em 2001. Mas não é a mesma coisa, eu sei.





4-Keith Richards com Chuck Berry – “Oh Carol” (1986)

É tudo uma questão de hierarquia. Temos Keith Richards, o cara mais podreira do rock, aquele que teria trocado de sangue para continuar sobrevivendo a overdoses, intimidado como um coelhinho diante da bronca de seu ídolo Chuck Berry. Na ocasião, em 1986, Richards assumira a direção e guitarra base dos shows que comemoravam os 60 anos de idade de Berry. O inventor da duck walk passa o pito no Stone e diz, entre outras coisas, “é este o jeito que Chuck Berry toca, entendeu?”. Por estas e por outras Berry ainda é, com Jerry Lee Lewis, o último precursor do rock and roll ainda vivo.





3-David Grohl com Queens of the Stone Age – “A Song for the Dead” (2002)

OK, todo mundo sabe que David Grohl é originalmente baterista, exerceu o ofício no Nirvana, e etc. Mas em 2002 ele já estava há quase uma década à frente do Foo Fighters, consagrado como vocalista, guitarrista e compositor. Sua volta ao banquinho não poderia ser mais memorável. As baterias do disco “Songs for the Deaf” ficaram tão boas que ele teve que abrir espaço na agenda para se oficializar como integrante do QOTSA e cair na estrada com a banda. Durou pouco, mas o suficiente para que Grohl pegasse gosto pelo trampo de baterista freelancer estúdio e gravasse mais uma série de álbuns de amigos, entre eles os ótimos “You Are Free” (2003), de Cat Power, e “With Teeth” (2005), do Nine Inch Nails.





2-David Bowie com Iggy Pop – “Sister Midnight” (1977)

Muitos astros triunfaram na iniciativa de recuperar ou alavancar a carreira de seus heróis. Mas Bowie foi o mais certeiro, porque possivelmente as trajetórias solo de dois de seus maiores ídolos não existiria não fosse por sua ajuda. Lou Reed estava meio perdidão após o final do Velvet Underground e só encontrou sua nova direção em seu segundo trabalho, “Transformer” (1972), produzido, tocado e influenciado pelo fã. Com Iggy Pop a presença do Camaleão foi ainda mais determinante. Bowie, que já trabalhara com os Stooges no fundamental “Raw Power” (1973), foi buscar Pop em uma clínica de reabilitação e produziu seus dois primeiros discos solo, que viriam a definir sua nova fase, mais experimental e com vocais bastante “bowiescos”:“Lust for Life” e “The Idiot”, ambos de 1977. Não bastando, chamou o amigo para abrir seus shows e fez as vezes de tecladista e backing vocal de sua banda. Alguns, entre eles o diretor Todd Haynes no filme “Velvet Goldmine” (1998), defendem de que tudo era fruto dos mais puros amor e desejo sexual.





1-Robert Smith com Siouxsie and the Banshees – “Circle” (1979)

O Cure já tinha seu primeiro disco (“Three Imaginary Boys”) lançado e abria os shows do Siouxsie and the Banshees quando Robert Smith foi chamado para substituir John MacKay. Ninguém escutou sua voz, seu papel limitava-se a tocar guitarra e teclado. Uma fase que acabou sendo curtíssima, mas incrível. Os Banshees ainda estavam formatando seu estilo obscuro e experimental, e nota-se que Smith participou em muito do processo com suas notas estranhas e melancólicas. Os outros vídeos desta colaboração são ótimos, mas este é especialmente precioso porque a transformação do grupo pode ser comprovada – observem o rolo de fita emitindo um cavernoso loop analógico. Também vale pela performance corporal de Smith, com seu eterno ar de jovem sofrido e blasé, teclando com uma mão e mexendo na camisa com a outra. Ah, e também pelo bizarríssimo final estilo Hermes & Renato. Imperdível.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

2000-2009: The iPod Years




Nas enciclopédias de um futuro mais ou menos próximo, uma frase como esta acima definirá nossa década. Olhando para trás com algum distanciamento cronológico, poderemos por fim observar claramente o tamanho da revolução que aqueles velhos anos 00 representaram na maneira de se apreciar música, tecnologicamente falando.



Também será possível notar como a mudança descomunal - possivelmente a mais radical desde a própria invenção do disco - foi o ippon na Indústria Fonográfica como a conhecíamos e democratizou como nunca o acesso à informação musical.



O que é uma faca de dois gumes, aliás. Lembra daquele Zé Mané da adolescência que sentava do seu lado na escola e não dava a menor pelota para os discos importados pelos quais você dava a alma na Galeria do Rock? Agora ele possui, em seu hard disk de um tera, todos na versão original, além das edições remasterizadas com bônus tracks e os cortes em mono que só saíram do Japão. Mas ele nem sabe que tem nada disso, e se souber nunca vai escutar. Afinal, sob certos aspectos as coisas não mudam tanto assim, e ele ainda faz questão de ser o mesmo Zé Mané de 1993.



Mas o que não se altera também, ainda bem, é a capacidade dos artistas de reinventarem a música. Ranzinzas que me perdoem, mas independentemente de como chegaram aos tímpanos das pessoas - se em MP3, MP4 ou alguma outra sigla -, os discos bons surgiram aos montes entre 2000 e 2009. Por isso, e porque não é todo dia que uma década acaba, o Mala da Lista, que havia dito que tentaria fugir das listas-clichê, abre aqui uma exceção para selecionar os álbuns internacionais de que mais gostou entre os lançados no período. Neste primeiro post, do número 10 ao 6.



Não foi nada angustiante tirar as dúvidas que ainda pairavam sobre os dez-mais definitivos. A todos os finalistas ordenei "já para o iPod" (sempre ele...), e a partir de então sucederam-se audições consecutivas em caminhadas, corridas, pedaladas ou cambaleadas em ziguezague pelas ruas de Barcelona. Azarões atropelaram por fora na última hora e favoritos perderam fôlego no sprint final, como em toda disputa emocionante.



Basicamente, estes integrantes do Top 10 2000-2009 são:



-discos que criaram um universo inédito, uma estética totalmente ou quase totalmente original, e que já influenciaram muita gente.



ou...



-discos que são gloriosas atualizações de tradições sólidas na galáxia pop. Podem não ser os mais inovadores da paróquia, mas igualmente me inspiraram e influenciaram.



A primeira categoria pesou a favor como critério de desempate, por exemplo, na decisão entre o primeiro e o segundo colocados. Outra regrinha foi descartar a repetição de artistas: dois títulos que fossem do mesmo autor e estivessem aptos à lista final tiveram que se digladiar numa espécie de eliminatória mata-mata, com prorrogação e decisão de pênaltis.



Em comum, os dez álbuns podem dizer que foram e ainda são habitués de meu CD player ou iPod. E que se candidatam seriamente a sobreviverem à passagem do tempo, nos moldes da teoria do escritor japonês Haruki Murakami no precioso livro "Tokyo Blues". Segundo ele - se referindo aos livros, e eu adapto aqui para os álbuns - só se analisa a excelência de uma obra trinta anos após a morte de seu autor. Em 2039 a gente se fala, então.






MEUS DISCOS DA DÉCADA - DO 10º ao :



10-Amy Winehouse - "Back to Black" (2007)




A esta altura, você já deve sentir náuseas à simples menção do nome da cantora inglesa. Eu mesmo estou controlando a golfada e respirando fundo. Mas o que devemos tentar evitar, como certamente não faz o Zé Mané do segundo parágrafo, é julgar um artista pop por sua incidência nos tablóides. Fosse assim, Michael Jackson seria o mais desprezível dos cantores em todos os tempos.

Antes que sucumbisse à superexposição e ao estilo Geraldão de ser, Amy Winehouse gravou uma belíssima coleção de canções que nos transportou para algo próximo dos golden years da Motown e dos singles de Phil Spector. E não só porque "Tears Dry on Their Own" é filha de "Ain't no Mountain High Enough" (Amy até deu crédito ao casal Ashford & Simpson, autor do hit de Marvin Gaye), mas também porque a adorável magrela desdentada recuperou um pouco da equação que encantou o mundo nos anos 1960: música negra de qualidade + malícia + produtores e músicos espertos = magia pop.

E ainda que a produção de Mark Ronson e os arranjos vintage da banda acompanhante, Dap-Kings, sejam de um bom gosto e um suíngue irretocáveis, o mérito principal é de Amy. Sua voz sacana e segura e a pegada vira-lata de suas letras - nos EUA a bolacha ganhou o famoso selo "Explicit Lyrics" - e seu carisma de mulher de malandro foram irresistíveis. Vale lembrar que os mesmos Dap-Kings foram os sidemen de outra bela bolacha, "100 Days, 100 Nights", de Sharon Jones, uma cantora ainda mais potente que Winehouse, mas sem o "mojo" necessário para vender mais de 12 milhões de cópias.

*Uma música: "Rehab"




9-Paul Weller - "22 Dreams" (2008)




Em seu cinquentésimo aniversário, o ex-vocalista do Jam e do Style Council nos deu de presente um disco que não falha da primeira à vigésima-primeira faixa (os sonhos são 22, mas as canções não passam de 21).



E é nada menos que comovente escutar, embasbacando-se, como o cara destila o que aprendeu em três décadas. Com raiva e amor, rhythm and blues enérgicos se entrelaçam a baladas de cortar o coração, enquanto peças instrumentais abrem caminho para doces melodias pop. Não tem erro.



Tocadas por gente que endeusa Weller, como Noel Gallagher e Graham Coxon, as guitarras de "22 Dreams" encheriam Neil Young de orgulho. Elas servem de tapete para sua voz em estado de graça, pela qual vibram graves de arrepiar a espinha. Um disco para tampar, com bola de bilhar e silver tape, a boca dos que vivem enterrando o rock.

*Uma música: "Have You Made Up Your Mind"


8-El Guincho - "Alegranza" (2007)





Na década em que o sample virou carne de vaca, dá preguiça pesquisar, mas ainda é possível topar com quem encontre novos atalhos para o ofício de recortar e recontextualizar. No caso de El Guincho, nome de guerra de Pablo Díaz-Reixa (integrante da espetacular banda Coconot, da qual ainda falarei), trata-se de seu próprio e inimitável caminho das pedras.



Nascido nas Ilhas Canarias, o arquipélago espanhol que fica mais próximo à África do que da Europa, ele soube centrifugar o heterogenismo de suas referências sonoras com um talento e uma identidade assustadores. Batucadas à caribenha e à canária, faro pop à anglo-saxã, hipnose e texturas à alemã, escalas e melodias a vai-saber-que-lugar-do-mundo. Cabe tudo dentro da máquina de lavar de El Guincho, e o nome da massaroca que ele estende no varal ainda está por ser inventado.



Conceitualmente, lembra vagamente o que Brian Eno e David Byrne criaram em 1981 com " My Life in the Bush of Ghosts". Mas pára por aí, já que, na prática, só se parece mesmo com uma coisa: El Guincho.



*Uma música: "Palmitos Park"



7-Queens of the Stone Age - "Songs for the Deaf" (2002)



Quem disse que o rock pesado também não pode se renovar? Certamente, não foram Josh Homme ou Nick Olivieri, os cabeças do Queens Of The Stone Age quando este monolito intransponível foi parido. Sem querer, "Songs for the Deaf" foi uma rara e interessante referência da década de 00 ao datado grunge. Veteranos "noventeiros" de fato (tocaram no extinto Kyuss), Olivieri buscavam o equilíbrio entre o peso, a sujeira e o pop com afinco semelhante ao da rapeize da Seattle de dez anos antes.

Mas a sua versão da mesma receita saiu do forno bem mais crocante e saborosa, com um espantoso frescor. Uma parafernália pesada, máscula, movida por uma potência nuclear apenas equiparada pelo clássico-mor daqueles dias, "Nevermind". Somente a testosterona despendida pelo riff de guitarra da primeira faixa, "You think I Ain't Worth a Dollar, But I Feel Like A Millionaire" já basta para que o ouvinte assimile o tapa na cara e entre no clima.

E por falar em Nirvana, David Grohl foi um dos heróis grunge angariados para a superbanda em que se converteu o Queens Of The Stone Age durante a confecção de "Songs For The Death" e a turnê que sucedeu seu lançamento. Após anos empunhando voz e guitarra no Foo Fighters, ele coçava as mãos para voltar a tocar bateria numa banda. E, uma vez solto no estúdio, o sujeito só faltou fazer chover: desde Keith Moon não se via um baterista pegar tão de jeito e ao mesmo tempo se divertir horrores num disco de rock.

O outro safra 92 convidado foi o ex-Screamming Trees Mark Lanegan, gogó rouco mais estiloso da atualidade, cujo canto cavernoso grudou nos falsetes de Homme como uma pitoresca e sedutora cola. Para ouvir alto. Muito alto.

*Uma música: "A Song For The Deaf"


6-Sonic Youth - "Sonic Nurse" (2004)



CV Sonic Youth: Quase trinta anos juntos. A mesma formação há 25. Um casal rumo à boda de diamantes, o verdadeiro matrimônio sagrado do indie rock. Uma média de um álbum a cada dois anos e pouquinho que não se altera. Todos eles bons. Ou excelentes.
Enquanto viam a nova onda roqueira 2000 nascer e explodir em sua vizinhança nova-iorquina, Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo, Steve Shelley e mais o colaborador de luxo Jim O'Rourke (que durou só dois álbuns) apenas seguiram normalmente sua rotina, lançando belos trabalhos de estúdio. "Sonic Nurse" foi o mais certeiro dos quatro editados na década, e em suas entrelinhas lia-se: "vocês são jovens e legais, mas nós somos os caras que vocês imitam, lembram-se?".

O álbum é uma mistura exata dos dois critérios la de cima, já que não traz nenhuma novidade estilística com relação a LPs anteriores da banda, mas mantém justamente a tradição do som inventado pela própria. E que segue sendo copiada aos borbotões. Melodias de primeira, bateria precisa e explosiva, os gritos e sussurros de Gordon (ela cantando "I Love You Golden Blue" para Moore é inesquecível) as dinâmicas de fazer o chão tremer... puro SY no que eles têm de melhor.

*Uma música: "Stones"