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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Do You Remember The 00's?







Ano de 2021. Às 8h50 você abre os olhos e enxerga seu filho de seis anos, o caçula, em posição de sentido ao lado de sua cama. Antes que ele te relembre, ansioso, de que estamos em um sábado e você ficou de levá-lo na casa daquele endemoniado amiguinho, a primeira violenta palpitada em seu cérebro denuncia uma nova e braba ressaca. Precisamente a número 603 de seu currículo. Uma marca invejável, embora o número 602, de acordo com o seu atual andar de carruagem, tenha ocorrido no já longínquo day after do reencontro escolar de 2019.

É preciso ganhar tempo. Bernardo, o seu filho (agora estão na moda nomes pomposos como este) já está de cabelo penteado a contragosto e começa a demonstrar sinais de impaciência. Aí você aproveita para recapitular o que aconteceu na noite anterior.

Sim, foi isso mesmo. Voltaste às 6h15, trançando as pernas, da Do You Remember The 00's?, a festa que aquele cara com quem você trabalhou uma época remota resolveu organizar. Seguindo a infalível tendência de reverenciar a música de duas décadas atrás, o sujeito foi o pioneiro no revival dos anos 2000. Tinha até uns quarentões combinando terno com tênis Adidas e umas quarentonas enxutas imitando os penteados da Cat Power. E a música tendia ao rock, veja só, tocada por um DJ especializado na técnica vintage de disparar músicas desde dois iPod.

Corta. Como vocês viram, quis brincar com o recurso narrativo mais em voga atualidade, o flash foward. Ele está por toda parte, seja em séries como "Lost" e, a-han, "Flash Foward", no livro "Slam", de Nick Hornby, ou até, de certa forma, no filme "The Curious Case Benjamin Button". Mas imagino, de verdade, que as chances de situações como a de acima ocorrerem com milhões de pessoas em 2021 sejam grandes.

Para isso, o Mala da Lista já prepara, com mais de uma década de antecedência, o playlist da tal festa. Ou seja, as canções internacionais que, em dois segundos, te transportarão de volta aos 2000's. Da mesma forma como hoje em dia você volta aos 80 com um simples acorde de Echo & the Bunnymen, Michael Jackson, Cure, Smiths e Madonna, ou aos 90 quando soam nas caixas Smashing Pumpkins, Deee-Lite, Blur, Nirvana e, outra vez, Madonna. Como não haverá muito tempo a perder e todo mundo terá muito o que fazer no dia seguinte, o Top 10 da festa será objetivo. Ou seja:

1-Não são necessariamente as minhas músicas favoritas da década, e sim as que mais a identificam. Embora considere todas boas. Oras, me recuso a viajar no tempo oferecendo emo, nu-metal ou outras várias espécies de lixo que também representam estes 2000's. Para ouvir este tipo de som você precisará recorrer à noite "Trash 00's" que lançarão em 2022 num novo bar no centro de São Paulo, o Michelangelo.

2-Todas têm que ter sido grandes hits, ou seja, não espere Radiohead, TV on The Radio ou outros queridos e tão típicos da nossa era. Eles são geniais, mas menos massivos que os aqui selecionados.

Pois chega de lerolero. Aqui, o Playlist gringo da Do You Remember the 00's edição inaugural em 2021 (por ordem de identificação do hit com a década):


10- Madonna - "Music" (2000)

Só ela conseguiu. Enquanto umas vinte canções da Madonna são sinônimo de 1980's e mais uma meia-dúzia são puros 1990's, esta década começou com a loira marcando seu território graças a seu conhecido método: atualizar sua agenda de produtores para superar novos concorrentes. Nisso, ela provou que é mais eficiente até do que o Michael Jackson. A bola da vez da Madonna 2000 foi o suíço Mirwais, que reinventou mais uma vez o potencial de pista da cantora com um pancadão de frescos timbres, graves de tremer as paredes, vocoders e tecladinhos espertos. E ainda contou com Ali-G, o irmão mais velho do Borat, no clipe. Até a Adriana Calcanhoto fez cover. "Era a música que queria ter feito", me disse a gaúcha numa entrevista em 2002.
 

 

9-Kanye West - "Gold Digger" (2005)

Agora em 2009 a figura de Kanye West dá até uma certa preguiça, de tão superexposta. Mas isso está diretamente ligado ao quão talentoso e prolífico o cara é. Antes de estrear como artista solo em 2004 com "The College Dropout", já figurava como produtor em dezenas de álbuns de hip-hop e R&B, incluindo de pesos pesados como Jay-Z. Depois do début, a lista de colaboradores dobrou e, de forma impressionante, ele seguiu sacando um álbum por ano. Algo que ninguém do primeiro time do mainstream se aventura a fazer. O segundo, "Late Registration", é excelente e quase entrou no Top 10 da década do Mala da Lista. Companheiro a samples de gente como Curtis Mayfield e Gil Scott-Heron presentes no disco, o trecho de "I Got a Woman", de Ray Charles embalou "Gold Digger", o petardo do ano sobre mulheres aproveitadoras que namoram rappers. Aqui, a versão sem a ridícula censura da "N word" do refrão ("I ain't sayin' she's a gold digger/ But she ain't messing with no broke niggers").





8-Coldplay - "Clocks" (2002)
 
Aproveite que este será o momento mais calmo da noite, e você poderá acertar as diferenças com aquele affair que tinha futuro, mas acabou mal por algum motivo. E aproveite que não é sempre que um riff de piano cativa multidões. Acusado de imitar o Radiohead (discordo, acho que a voz de Chris Martin tem muito mais de Ian McCulloch do que de Thom Yorke), o Coldplay chegou comendo pelas beiradas e acabou virando o sucessor do U2 como "banda de estádio". Prefiro o primeiro álbum, "Parachutes" (2000) - suas primeiras seis músicas são impecáveis - e não tenho muito interesse no terceiro ou no quarto. Mas o segundo, "A Rush of Blood to the Head", e o pop suave de "Clocks" determinaram o status de megagrupo.
 
 

 


7-Beyoncé - "Crazy in Love" (2003)

Esse lance de superexposição que volta e meia é motivo de resmungos aqui poderia abrir, fácil fácil, uma exceção para a Beyoncé bailando com pouca roupa. Pode parecer um comentário troglodita, mas é apenas uma constatação de que me rendo a seus encantos. E não estou só: todo mundo, homens, mulheres, transexuais, velhos, crianças, acaba parando só para dar uma espiadinha quando aparece um clipe na moça na TV. E ela não é vulgar, como tantas contemporâneas. E seus hits são grudentos e com produção da pesada. E ela sabe cantar. Ora, quem não gosta da Beyoncé?
 
 

6-Franz Ferdinand - "Take me Out" (2004)
 
Roqueiros escoceses que vestem roupas de grife, têm cabelos milimetricamente penteados e tendem a usar ritmos "funkeados" ou "disqueados" em suas músicas. Poucas coisas podem sem mais 2000's que isso. O bacana do Franz Ferdinand em seus melhores momentos é que se trata de uma banda com formato clássico (quarteto com duas guitarras, baixo e bateria) soando com uma potência de produção de hip-hop e coesão perfeita para as pistas. Mesmo com uma faixa como "Take me Out", que muda de andamento na metade, algo muitíssimo raro em grandes hits.


5-Gnarls Barkley - "Crazy" (2006)
 
Para nosso prazer, existe um enxame de artistas hip-hop que experimenta para valer, obtendo parte fundamental do que mais importa na música pop contemporânea. No clube de elite dentro desta turma estão os que ainda por cima conseguem fazer muito sucesso. Como por exemplo o Kanye West ali do número 9, The Roots uma ou outra vez, o OutKast... e o Gnarls Barkley. O fato de "Crazy" ter sido um fenômeno comercial, mesmo com sua letra pesada sobre loucura e abusos químicos, é uma lufada de esperança de que a música boa ainda possa dominar o mundo. Se alguém chegasse para um produtor da Stax em 1966 e, com o uso do flash foward, mostrasse que 40 anos depois a soul music soaria desta maneira, ele diria um "oh, yeah" cheio de animada aprovação. E definitivamente não muitas coisas podem ser mais legais do que Cee-Lo, Danger Mouse e banda de apoio vestidos de personagens de "Star Wars" para cantar a música.




4-Strokes - "Last Nite" (2001)

Já com vários uísques na cabeça, você esperará alguns compassos da guitarra introdutória para se certificar de que é mesmo aquela música que está tocando. Quando entrar a bateria, você emitirá um urro gutural e comentará com o amigo do lado, o qual você tem visto uma vez a cada dois anos, mais ou menos, de que estavam juntos a primeira vez que a escutaram. E argumentará, soltando o bafo de álcool na cara dele, que clipes oficiais cujo áudio são na verdade uma gravação ao vivo mandam bem. E que clipes em que o microfone da bateria cai sobre o baterista (minuto 2'17), e ele aproveita para contar com as baquetas em cima do pedestal, e o guitarrista tenta ajudar mas só atrapalha, são ainda melhores.



3-Amy Winehouse - "Rehab" (2007)

Eu não conhecia a Amy Winehouse do primeiro disco, "Frank" (2003). Ela tocando "Rehab" em uma edição do programa inglês "Jools Holland" (todo um clássico dos 00, apesar de existir desde 1992) foi sua primeira para mim. Tudo ali chamava a atenção, da voz ao figurino, da expressão corporal à canção. Grande candidata a piada interna da festa. Afinal, ela poderá ter ingressado pela centésima vez em uma rehab no dia anterior, ou será evangélica, ou estará num reality show de celebridades decadentes, ou... bom, deixa para lá.
 

 

2-OutKast - "Hey Ya!" (2003)

Mais de vinte anos antes, Paul McCartney já tinha tido a ideia de aparecer tocando todos os instrumentos (mas como se fosse um personagem diferente em cada um) no clipe de "Coming Up". Só que a caretice cênica do ex-Beatle fica realmente pequena para a canalhice irresistível de Andre 3000 seduzindo suas groupies como o multihomem que ordena: "Now all Beyoncés and Lucy Lius/ Shake it like a Polaroid picture". Apenas ameaçada pela versão sincronizada da música com a inesquecível dança da turma do Charlie Brown que você também pode ver aqui. Lou Reed, quando ouviu "Hey Ya!" pela primeira vez, disse: "esta é a razão pela qual eu gosto do rock'n'roll".




1-White Stripes - "Seven Nation Army" (2003)

Numa manhã de maio de 2006, eu Ozama, Dudu e Fernandão, companheiros do recém-congelado Jumbo Elektro, esperávamos um trem que nos levaria de Lucca a Florença, na Itália. Na outra direção, subiram em um vagão uma meia centena de torcedores do Lucchese, um time de futebol xexelento que, em mais de cem anos, esteve por menos de dez na primeira divisão italiana. Eles rumavam a outra cidade ali perto, Viareggio, onde ocorreria naquela tarde um confronto imperdível com a equipe local. E, depois do "Viareggio, Viareggio, vaffanculo!" entoado pela rapeize, ecoou um estrondoso "ooo-o-o-o-o-oo-oooo", imitando o riff principal da guitarra que parece baixo de "Seven Nation Army".

Apenas dois meses depois, já na Espanha, acompanhei a final da Copa ao lado de um monte de italianos em um bar. Não só eles, mas a massa vermelha, verde e branca que festejava o título contra a França no estádio Olímpico de Berlim, cantavam em uníssono as sete palhetadas de Jack White. Na edição do ano seguinte do festival Sónar, aqui em Barcelona, o trio de beatboxers japoneses Afra & Incredible Beatboxband distribuíram aos jornalistas um DVD no qual mostravam sua versão vocal de "Seven Nation" a um incrédulo White nos bastidores de um festival. Enquanto isso, revistas como Rolling Stone, Q e NME a colocavam no alto de listas como "os melhores riffs de guitarra de todo o tempo".

A loucura mundial em torno deste trecho da música e as dezenas de covers que gerou já seriam quase suficiente, mas os méritos estão longe de parar por aí. Há ainda a dinâmica matadora (riff sozinho - riff com bumbo - riff com voz e bateria - refrão com guitarra distorcida - volta para o riff), a voz espetacularmente esganiçada de White, a sonoridade garageira. E completa o pacote clipe da dupla francesa Alex Courtes e Martin Fougerol, que suscitou o mais negro humor invejoso do compatriota Michel Gondry. "Tudo o que eu toco vira merda. Fiz seis clipes para o White Stripes e o único que não fiz foi hit", disse Gondry em ume entrevista.

E será justamente ao som do riff de "Seven Nation Army" que terminará seu último e perturbado sonho pré-ressaca, à chegada de Bernardo. Hora de voltar a 2021.






quarta-feira, 21 de outubro de 2009

2000-2009: The iPod Years (Parte 2)


5-TV On The Radio - "Return to Cookie Mountain" (2006)




Se juntássemos a quantidade de lixo produzido em nome da sagrada herança musical negra nestes últimos dez anos, teríamos material para uma playlist eterna. Com a transformação de algumas vertentes do hip-hop em máquina de dinheiro em meados da década passada, o oportunismo e o mau gosto disseminaram pelas rádios e MTV um farto catálogo de pragas: canastrões de canto choroso, gostosas sem talento, rappers que contam vantagem cuspindo idéias neolíticas sobre a vida em geral, e odiosos duetos entre estes dois últimos exemplares da fauna.
Aí é que entra o TV On The Radio. Em uma visão rasa e racista, alguém poderia dizer que a banda novaiorquina é interessante por trazer músicos negros que não necessariamente apostam por R&B, ou gangsta rap, ou alguma dessas estéticas tão desgastadas normalmente associadas aos músicos afroamericanos contemporâneos.
Mas é óbvio que vai muito além disso. O TOTR impressiona porque criou em seus três álbuns ("Cookie Mountain" é o segundo) um mundo particular. E tal concepção rolou justamente porque seus integrantes souberam absorver e dar novos significados às pepitas desta mina de ouro que é a tradição musical dos EUA. E não lapidaram apenas as pepitas negras, por supuesto.
Este carismático planeta mostra sua geografia inconfundível em apenas 20 segundos de "I Was a Lover", a primeira faixa de "Return to Cookie Mountain". Estão, nestes poucos compassos, todas as marcas do grupo. Batidas quebradas desdobradas confrontadas a paredes vocais inspiradas pelo doo wop dos anos 50. Dando a liga, colchas de guitarra shoegaze coreografam com estranhos samples e teclados de ecos experimentais.
E, enquanto tentamos captar todas as nuances das vozes - atenção para os falsetes deslumbrantes do guitarrista Kip Malone -, nos convertemos em habitantes felizes de um território que ainda tem muito a ser explorado.
*Uma música: "A Method"


4-Beth Gibbons & Rustin' Man - "Out of Season"




É uma constatação cruel saber que o mundo fica mais belo quando Beth Gibbons está triste. Mas trata-se da mais pura verdade, e a gente já sabia disso desde "Dummy" o primeiro disco que a banda dela, o Portishead, lançou lá em 1994. Quando você a vê ao vivo num palco - os olhos fechados, o cenho franzido em desconsolo, a coluna arqueada em ângulo côncavo -, a vontade que dá é de levá-la para casa e envolvê-la num cobertor.
E, se Gibbons já nadava num mar de solidão quando cercada das cortinas de samplers e texturas do Portishead, imagine a distinta donzela inglesa quando despida de toda aquela áurea de mistério, e vista de muito perto. O que acontece, então, é a exposição das feridas de alguém que sofre, sofre e sofre, mas aguenta o tranco até o fim porque sabe que transformará a dor em arte. Pois, como geme Gibbons em "Sand River", "beauty's got a hold on me".
E, para que canções tão lindas e sentidas ganhassem um entorno à sua altura, o ex-Talk Talk Rustin' Man foi o maestro soberano. Costurou uma delicada teia de violões, órgãos, baixo acústico, cordas, metais, acordeom e outros tecidos típicos do folk renovado para converter os lamentos-canção da colega, se é que isso era possível, em épicos do intimismo.
Na imersão dos climas e versos, Gibbons ainda demonstra o porquê de ser uma das cantoras mais especiais dos últimos anos, remetendo tanto a Nick Drake quanto a Billie Holiday, entre outras lendas do sofrimento cantado. Mas não vá se desesperar por tanto desamparo. Siga os conselhos da própria Beth na maravilhosa "Tom The Model":
"You know you don't ever have to worry 'bout me/

I'd do it again".

*Uma música: "Sand River"


3-Radiohead - "In Rainbows" (2007)



Antes que a TORA (Torcida Organizada Radiohead te Amo) manifeste seu repúdio à ausência de "Kid A" nesta lista, é importante relatar alguns bastidores. Seguindo o regulamento do Mala da Lista de acordo com o qual uma banda só poderia ter um álbum no Top 10 da década, a idolatrada bolacha de 2000 jogou uma empenhada prorrogação com "In Rainbows". O empate persistiu, o que acabou levando a decisão às penalidades máximas. E aí na hora H, não teve jeito, apesar do talento dos batedores de "Kid A": Thom Yorke (tirombaço no ângulo), Jonny Greenwood (com efeito e paradinha), Ed O'Brien (toque seco no canto), Colin Greenwood (toque seco no meio) e Phil Selway (no contrapé do arqueiro).
"In Rainbows" venceu a eliminatória porque, antes de mais nada, ele É um pouco "Kid A". E É um pouco de "The Bends", "OK Computer", "Amnesiac".... suas dez faixas atestam que Yorke e equipe perceberam que não precisavam mais dedicar tanto tempo revirando do avesso as estruturas da Canção, ou descobrindo timbres tão ousados, ou criando atmosferas de tal estranheza para chegar "lá". A banda pop mais importante da década concluiu que, com seu arsenal composto por uma voz imortal, acordes e melodias insuperáveis e uma infinidade de ideias para arranjos originais, tudo poderia ser mais simples e natural.
Se "Kid A" era uma viagem sem volta a lugares jamais antes visitados - o álbum soa exatamente como uma regata, em barco também de gelo, às paisagens polares de sua capa-, "In Rainbows" é a assimilação desta trip na forma de melhores e mais objetivas canções. Que, para conforto da TORA, vêm embaladas em impenetráveis películas do experimentalismo acumulado em seis outros trabalhos de estúdio.
E que contam com algumas das melhores interpretações vocais da vida de Yorke. Vide "All I Need", "Videotape" e, sobretudo, "Nude", em que ele encarna uma espécie de Smokey Robinson pálido e tristonho anunciando a era glacial que se aproxima.
Nada, portanto, como a maturidade de quem sabe o que significa ter que continuar lançando álbuns, e que está ciente da expectativa que paira sobre eles. Mesmo após já ter dado ao mundo um "OK Computer" ou um "Kid A". Que venha o próximo.
*Uma música: "House of Cards"


2-Strokes - "Is This It" (2001)




De certa forma, "Is This It" é o "Nevermind" dos 00. Mais do que coincidência, o fato dos dois álbuns terem sido lançados nos primeiros anos de suas respectivas décadas foi sintomático. A ruptura proporcionada pelo trio de Kurt Cobain foi mais necessária, porque no final dos anos 1980 a situação do rock no mainstream era realmente crítica (Poison e Skid Row dominavam as paradas). Mas no crepúsculo dos 1990, com boybands e britneys dando as cartas e a eletrônica como um das únicas válvulas de escape de renovação, o rock também precisava de uma injeção de energia.


E "Is This It" foi bem mais do que uma dose cavalar desta energia. O disco acabou sendo o beabá de como este tal de rock seria resgatado pela milhonésima vez. Agora (ou melhor, lá em 2001), segundo a cartilha de Julian Casablancas e aqueles outros quatro guaperas, se daria bem quem pesquisasse o que aconteceu em Nova York entre 1967 e 1979. Em termos de música, visual e o estilo "sou novaiorquino, mando bem e não estou nem aí".
De Velvet Underground a Blondie, dos Ramones ao Television, não houve proto-punker que não comparecesse, ainda que na forma de uma leve citação, no coquetel estroqueano. Com a diferença - e uma importante diferença - que nenhuma destas vacas sagradas, com exceção dos Ramones, reuniu jamais gemas pop roqueiras tão irresistíveis em um mesmo álbum. Tanto foi assim que "Is This It" virou o disco de rock a ser batido na década... e pelo menos até o quinto bimestre de 2009 ainda não foi superado.
Como efeito colateral, da mesma forma que o Nirvana gerou o Silverchair e o Creed, e o grunge se desgastou relativamente rápido, o "novo rock" dos Strokes tem sua parcela de culpa indireta. Pela inspiração que infringiu às bandas emo e a toda esta classe de bundões sem imaginação que fizeram com que, no final da década, já estejamos de saco cheio desta estética pós-punk recuperada. O que era vanguarda virou um modelo cansativo: todas as batidas têm que ter a "urgência" disco-rock, os vocais são obrigatoriamente chorosos, os teclados precisam porque precisam emitir melodias melancólicas e grandiloquentes, e as letras que não forem meio engraçadinhas, irônicas, são descartadas.
2011 se aproxima e alguém precisa passar o rodo nesses aproveitadores e servir às massas alguma outra espécie de "novo rock". A missão dos Strokes já está mais do que cumprida.
*Uma música: "Modern Age"




1-OutKast -"Speakerboxxx/The Love Below" (2003)




Pesquisando uma resenha que escrevi na ocasião do lançamento deste álbum duplo, publicada em dezembro de 2003 pelo site da MTV (não passo o link porque não está mais lá), achei a frase: "é sério candidato a disco do ano e desde já corresponde a um marco na black music". Lembro de, naquele momento, refletir sobre a possibilidade de estar, na verdade, diante da obra-prima da década. Mas dei de ombros a meus próprios pensamentos, numa bipolaridade cética, ainda que cautelosa. Afinal, estávamos apenas no quarto anos dos 00.
Seis outros se passaram e agora eu posso anunciar que "Speakerboxxx/The Love Below" é (são), sim, o(s) disco(s) da década.
A começar pela ousadia do projeto, em realidade a soma de "Speakerboxxx", um álbum produzido e protagonizado por uma metade da dupla, Big Boi, e "The Love Below", comandado por seu companheiro Andre 3000. Por isso os parênteses do paráfrago anterior, indicando os plurais. Até a capa é dividida. Em cada um dos CDs, o "outro" era apenas um convidado e não metia muito o bedelho. Nem os Beatles se atreveram a fazer isso. E olha que com eles isso seria possível, já que quase sempre eram nítidas quais eram as músicas de Paul e quais as de John.
A iniciativa não só foi um êxito musicalmente, mas acumulou recordes comerciais e prêmios pomposos: papou o Grammy de Álbum do Ano do ano e é o título de hip-hop mais vendido da história dos EUA, com 11 milhões de cópias vendidas (ou 5,5 milhões + 5,5 milhões, é assim que se contabilizam as bolachas duplas). Claro que aqui ninguém se preocupa com o Grammy, mas é curioso quando seus ganhadores são também um exemplar discográfico de excelência.
No caso do petardo duplo do OutKast, o principal indício desta excelência, sem dúvida, foi a pretensão bem-sucedida de derrubar barreiras entre o que se espera dos rappers e a quantidade de estilos pelos quais os mais talentosos deles podem transitar. Caso se aventurem, é lógico. Neste sentido, sob o filtro da lente pop, o trabalho está muito mais para TV On The Radio do que para Snoop Dogg.
Pelas contas do Mala da Lista, das 29 músicas propriamente ditas (excluindo as 11 vinhetas) espalhadas pelas duas horas e quinze minutos de "Speakerboxxx/The Love Below", 22 são essenciais, além de perfeitamente aptas a hit. Uma matemática insana que, novamente, pode não ter sido obtida nem pelo "White Album".
E o fenômeno "Hey Ya!", o megasucesso que até o Roupa Nova regravou, surpreendeu a tal ponto a própria gravadora que praticamente não ouve tempo para promover outras "músicas de trabalho". Uma delas, "Roses", por exemplo, é uma das melhores canções pop não só desta, mas de todas as décadas. E acabou passando relativamente despercebida pelo grande público.
"Speakerboxxx", o primeiro disco, não tira o pé do acelerador até sua metade. Ainda que tenha se mantido um pouco mais atado à tradição dos discos hip-hop moderno - os interlúdios, as várias participações de peso (de Jay-Z a Cee-Lo), as complicadas rimas -, Big Boi foi revolucionário. Flertou com miami bass ("Ghetto Music"), funkeiras ao estilo P-Funk ("Bowtie"), a canalhice em hibernação do Earth Wind & Fire ("The Way You Move") e vanguardistas bases ("War"). Na segunda parte, segue uma pegada não tão inovadora, mas com elementos interessantes distribuídos por todas as faixas restantes.
Quando chegamos em "The Love Below", o segundo disco, o buraco é bem mais embaixo. E para mim o impacto ainda foi maior, porque acabei escutando-o antes de "Speakerboxxx". Não intencionalmente, o que ocorreu foi que a prensagem enviada pela Sony-BMG aos jornalistas estava com os nomes trocados. A gravadora fez uma espécie de recall de fábrica, mas no Mala da Lista o dano já estava causado.
Sozinha, a parcela que cabe a Andre 3000 neste latifúndio provavelmente já garantiria o caneco da década para a dupla. Uma gorda nuvem de inspiração sobrevoou o sujeito durante a produção das canções, que em seu caso foi bem mais individualista, sem quase espaço para participações.
Sim, eu ia dizendo canções. Pois Dre deixou o elemento rima quase totalmente de lado, utilizando-o em posologia discreta - como se seus raps fossem um solo de guitarra ou sax -, e resolveu cantar. E, se como solista sua voz despontou como um jovem e ainda mais escrachado Sly Stone, nos coros elas são de uma esperteza que não se ouvia desde os melhores momentos do Funkadelic.
Um leque de possibilidades que se multiplicou com a opção de 3000 em usar, em sua visionária irresponsabilidade, jazz ("Love Hater"), funk ("Behold a Lady") e psicodelia ("She's Alive"), entre outros sabores, para dar corpo a suas ideias. O arranjo de cordas ao final de "Pink and Blue" é emocionante, enquanto o doce dueto com Norah Jones em "Take Off Your Cool" dá a mensagem da década: "baby, take off your cool / I wanna see you".

Some-se a isso a capacidade de 3000 de extrair algo legitimamente novo a partir de múltiplas influências e seu hábito de pensar musicalmente com a cabeça de baixo (até no nome do disco), e entendemos porque ele foi comparado a Prince. Um paralelo adequado, eu diria, mas com o adendo de que 3000 tem mais senso de humor e menos ambiguidade sexual que baixinho. De uma forma ou de outra, o cara é um gênio dos 00 do qual nos lembraremos.

*Uma música: "Roses"