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terça-feira, 8 de maio de 2012

Música visual para hospitais



Felizmente, a única sequela de minha recente temporada de visitas diárias a um ente (mais do que) querido em um hospital foi esta: uma lista de capas de discos povoadas por seres e sombras do universo dos quirófanos e corredores.

Estão todos aqui: médicos, enfermeiras e, sobretudo, os sempre pacientes... pacientes.

Saúde!

10-Three Dog Night – “Hard Labor” (1974)

Diagnóstico: overdose de mau gosto. Logo foi censurada com um band-aid:


9-Little Willie John – “Fever” (1956)

Na falta de uma esferográfica, vale tomar nota com o termômetro.

8-4 Out of 5 Doctors – “2nd Opinion” (1982)

A corriqueira visão do paciente quando a morfina bate.

7-Scorpions – “Blackout” (1982)

“My eyes! My eyes!”

6-Blink 182 – “Enema of the State” (1999)

Pelo menos nas capas essa banda acertou algum dia.

5-Blur – “Blur” (1997)

A mais realista e aflitiva do ranking.

4-Rainbow - Difficult to Cure (1981)

O cirurgião-chefe é a cara de Jack Sheppard, o médico bonzinho de “Lost”.

3-Sonic Youth – “Sonic Nurse” (2004)

Poderia ser a versão enfermeira da Kim Gordon. Fetiche puro, leia-se.

2-Radiohead – “The Bends” (1995)

Não sei o que é mais pertubador: o uso na capa de manequim de cursos para ressuscitar doentes cardíacos, ou sua semelhança com Thom Yorke.

1-Jeffrey Lewis & the Junkyard “‘Em Are I” (2009)

Ah, os “doente-múmias”. Tão essenciais para a estética do HQ quanto a bigorna caindo da cobertura de um prédio.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

10 razões para amar os anos 90

Em “Eu Sabia que isso ainda ia acontecer”, primeiro texto que publiquei em minha extinta coluna Massa Sonora, no site da MTV, há exatos 10 anos e oito dias, eu me espantava com o então emergente revival oitentista. Também tentava desenvolver a teoria de domínio público segundo a qual cultua-se, misteriosamente, sempre duas décadas para trás. Eu sou prova viva: bailei twist nos 80, curti um funk setenteiro nos 90 e, embora ao escrever aquele texto ainda achava meio absurda a volta do synth pop e das ombreiras, não muito tempo mais tarde assumiria as baquetas do Jumbo Elektro.

Pois a tal teoria continua valendo. E ousaria acrescentar mais um argumento: é no ano “2” (o terceiro de um decênio, por tanto), que o resgate começa a pegar. Os sintomas vão além das camisas xadrez em coleções de moda, ou os rabos-de-cavalo e barbichas que andam crescendo nas redondezas.  Por exemplo, o Primavera Sound, melhor festival de música de Barcelona (ocorre entre o fim de maio e o começo de junho), é destes que sempre puxa um cordão, antecipando modinhas.

E, se nas últimas edições já vinha oferecendo lapadas de britpop, grunge e trip-hop, para 2012 preparou uma verdadeira escalação-manifesto em homenagem aos anos 90, com Mazzy Star, Guided By Voices, Afghan Whigs, Mudhoney, Melvins, Björk, Yo La Tengo e outros. Até o Cure, um dos nomões do evento, celebrará os vinte anos de seu álbum “Wish”.  Tributo semelhante ao que o Helmet – grupo noventeiro por excelência – fará com a pedrada “Meantime” em show previsto para março.

Será, admito, um revival fácil de abraçar. Foi nos 90 que minha geração passou da adolescência para a er... idade adulta, a época em que, para quem gosta de música, a cobra - tá bom, não só a cobra - começa a fumar. Sendo assim, só resta ao Mala da Lista relembrar aqui 10 razões musicais para amar, ou voltar a amar aqueles anos. Na forma de álbuns gringos que eu, você e todo mundo precisa (re) escutar. Acompanham clipes ou registros ao vivo da época, para a imersão estética ficar completa.

10-Faith No More – “Angel Dust” (1992)


Metal torto, quase cubista, para se ouvir em cabarés. Resultado do encontro de imaginação, humor e coragem com som pesado.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Nine Inch Nails - “Downward Spiral” (1994).




9- Public Enemy – “Fear of a Black Planet” (1990)


O elo perdido e abençoado entre o hip-hop mais naïve e a farofada gangsta era simples e mortal: batidas de James Brown, ruídos infernais, política e pau em todo mundo, de Hollywood a Elvis.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: The Roots - “Things Fall Apart” (1999).




8-Beck – “Odelay” (1996)


Um muito de tudo misturado e mais um pouco. Ainda assim, de uma originalidade absurda.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: DJ Shadow – “Entroducing...” (1996)




7-U2 – “Achtung Baby” (1991)


Na guilhotina da virada da década, ninguém teve tantos colhões para mudar quanto esta banda. Que, abraçando a malícia dançante e a auto-paródia psicodélica, continuou grandiosa.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Depeche Mode – “Violator” (1990). 




6-Nirvana – “Nevermind” (1991)



Descontada a lenda, é uma espécie de disco-resumo do que foi a primeira metade da década.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Teenage Fanclub - “Bandwagonesque” (1991).




5-My Bloody Valentine – “Loveless” (1991)


A invenção das guitarras em 3D.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Sonic Youth – “Dirty” (1992)







4-Massive Attack – “Mezzanine” (1998)

Caso o mundo tivesse acabado mesmo em 31 de dezembro de 1999, a trilha sonora estava pronta. E teria sido bonito.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Portishead - “Dummy” (1994).




3-Radiohead – “OK Computer” (1997)


Atualização sonora das paranoias do final do milênio, que de quebra antecipou a década seguinte.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Tortoise - “TNT” (1998).




2-Red Hot Chili Peppers – “Blood Sugar Sex Magik” (1991)


O encontro da então melhor banda ao vivo do mundo com o produtor dos últimos 25 anos (Rick Rubin). Numa mansão assombrada em Hollywood.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Fishbone - “Give a Monkey a Brain... and He’ll Swear He’s the Center of the Universe" (1993).




1-Beastie Boys – “Check Your Head” (1992)


Tudo o que o hip-hop, ou a música em si, pode ser quando nas mãos de criadores geniais e desrespeitosos a barreiras de estilo.

Se não fosse tão bom, quem entraria na lista: Urban Dance Squad - “Life n’Perspectives of a Genuine Crossover” (1991). 



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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Wet and Wild Parte II: os clipes

Crédito: Anônimo

Como em outros anos, a chuva vem castigando pesadamente a massa veranista brasileira. Ainda bem que faz calor ao mesmo tempo, o que torna a combinação garoa + mergulho no mar plenamente viável.

Nas mais de duas semanas que o Mala da Lista passou no litoral de São Paulo recentemente, livros, luta contra o bolor e a magia do dominó foram realidade, mas também as recordações audiovisuais subaquáticas musicais. Em outras palavras, as enxurradas tropicais obrigaram o blogueiro a preparar o ranking dos dez melhores videoclipes em que os músicos ou atores principais aparecem submersos. Vários deles foram filmados embaixo d’água mesmo.

Reparem que apenas um dos escolhidos não foi produzido nos anos 1990. Ou seja, na golden age do videoclipe todo mundo achava que estava sendo original ao optar por produções “molhadas”.

10-Smoke City – “Underwater Love” (1997)

Batidas mezzo trip-hop, uma voz cantando versos bobos na nossa “exótica” língua e um astral supostamente descolado e misterioso. Vocês farejam picaretagem como eu estou farejando? De todas as formas, em 1997 essa espécie de electrobossa era considerada por muitos o supra-sumo do cool. Nem que para tal fosse necessário enfiar a vocalista Nina Miranda na água.


9-INXS – “Not Enough Time” (1992)

Como sempre acontecia antes de se suicidar, em 1997, o cantor galã Michael Hutchence foi quem ficou com o filé neste vídeo, ao beijar a gata subaquática em roupas íntimas. O resto da banda australiana nem sentiu o cheiro de cloro.


8-Sade – “No Ordinary Love” (1992)

Sempre explorando seu apelo sexy, aqui Sade banca a sereia. Embora dê para perceber que, pelo menos nos momentos em que canta, a sensação de estar submersa é apenas uma ilusão de ótica à base de decoração “marinha” e ventiladores. Nos outros trechos, ela de fato se esfrega num cidadão enquanto soltam bolhas, e num final triunfal ainda sai pelas ruas vestida de noiva.


7-Björk - “Oceania” (2004)

Outra que nem chegou perto de ficar com mãos e pés enrugados foi a mais famosa islandesa. Neste caso, foram precisos uma maquiagem e um figurino radicais, além de muita tecnologia audiovisual, para que o telespectador a imaginasse no fundo do mar junto com as medusas. A canção foi feita para a abertura das Olimpíadas de Atenas.


6-Smashing Pumpkins – “1979” (1995)

O clipe deste clássico indie tem bastante a ver com “Kids”, filme sobre adolescentes americanos sem futuro que causou grande furor na mesma época. No entanto, pega consideravelmente mais leve do que o longa de Larry Clark (o mesmo de outras produções indigestas como “Ken Park”), mostrando os jovens apenas arrepiando na balada e dando uma vandalizada básica numa vendinha. A parte que toca a este post ocorre a partir de 2’06’’, quando a rapaziada invade uma piscina para dar uns amassos e fazer cadeiras voarem, entre outras manobras.


5-R.E.M. – “Nightswimming” (1992)

Também remete à nostalgia da puberdade, especificamente no departamento dos mergulhos noturnos secretos com todo mundo pelado. “The fear of getting caught”, “They cannot see me naked” e geme Michael Stipe na bela balada. Aqui, em sua versão extensa, artística, quase um curta-metragem.


4-Portishead – “Only You” (1997)

O mais bacana e esquisito é que o badalado diretor inglês Chris Cunningham (o mesmo do impressionante “All is Full of Love”, de Björk, e o mesmo que deu o cano como VJ do show do Aphew Twin no Free Jazz 2001) não usou a água para recriar um ambiente natural. É no meio da opressão das decadentes formas urbanas que Beth Gibbons literalmente flutua, balbuciando seu canto sofrido. Até os cadarços de um tênis entram no balé malemolente.


3-PJ Harvey – “Down By the Water” (1995)

A inusitada sensualidade deste vídeo, também referência para a capa do álbum “To Bring You My Love”, começa com o particular ula-ula de Polly Jean, suingando no ritmo das maracas. O vestido e o bocão vermelhos tampouco passam desapercebidos. Aliás, é só falar em água que lá está a Sra. Harvey, como vocês podem relembrar neste ou neste post.


2-Nick Cave & the Bad Seeds and Kylie Minogue – “Where the Wild Roses Grow” (1996)

Muita gente se pergunta o que fez Kylie Minogue entre seus dias de musa teen australiana dos anos 1980 e seu ressurgimento como trintona gostosa no início da década passada. Pois é fácil: ela foi a musa morta de seu compatriota Nick Cave. A baixinha encarnou Elisa Day, ou a “Wild Rose”, na belíssima e trágica balada assassina escrita por Cave, também fazendo o papel no vídeo, no qual boia e canta sem vida na companhia de uma serpente e de um coelhinho. “All beauty must die”, condena o matador de Elisa.


1-Radiohead – “No Surprises” (1997)

Grant Gee, o tímido inglês que vi falar num cinema barcelonês antes de uma sessão de seu ótimo documentário sobre o Joy Divison, fez história na década de 1990. Pelo documentário “Meeting People is Easy”, que fez sobre o Radiohead, tido como um dos mais originais do gênero. E pelo clipe de “No Surprises”, no qual o vocalista da banda, Thom Yorke, aparenta estar submerso sem respirar por aflitivos 58 segundos (confiram: do minuto 2 ao 2’58’’). Claro que a música foi acelerada durante a gravação para que seu calvário não fosse tão longo.

O momento em que a água ultrapassa o nariz de Yorke é memorável, não só pelo efeito incrível da água separando o rosto em dois planos - isso se chama refração, né, senhores físicos? – mas também pela versão underwater da já normalmente incrível expressão do cantor, com suas orelhas de abano, dentes tortos e o olho esquerdo quase fechado por sua paralisia. Um clássico.


Ah, e eu faria uma versão alternativa do vídeo só usando imagens do making off. Uma experiência delirante, com a versão “Bozolina” da canção deixando ainda mais agudos o desespero, a ira e a feiura de Yorke enquanto ele não consegue o take perfeito. Assistam, com direito a comentários maldosos dos apresentadores do programa de TV (“é a canção mais triste que já ouvi”, diz uma presente).


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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Barcelona Muitos Graus - Parte II



O título deste texto ia ser “Barcelona nem tantos graus”, em referência a “Barcelona muitos graus” (baixe o cursor até o antepenúltimo post do blog para rememorar) tamanho o frescor deste agosto, normalmente o mês mais insuportavelmente quente do verão na cidade. Mas como hoje o sol está rachando e o bochorno (palavra espanhola perfeita para a designação do famoso “bafo” de calor) voltou a mil, o novo Top 10 se assume como uma sequel. O tema continua sendo veranista, mas agora migramos das capas ambientadas em praias para as que trazem artistas submersos, dando aquela refrescada básica. Os paulistanos putos da vida com os 10 graus que andam gelando suas espinhas podem interpretar como uma homenagem à “nostalgia do Verão”, como diriam os recifenses do Mombojó.



*Só valem as capas com os próprios artistas embaixo d’água. Belos trabalhos como “Further”, o novo do Chemical Brothers, ficam de fora.



10-Barbra Streisand – “Wet” (1979)





Ali no final dos anos 1990, virou moda tirar sarro do rosto pitoresco de Barbra Streisand. O desenho americano “South Park” e a comédia dramática brasileira “Até que a Vida nos Separe” são alguns exemplos que me ocorrem agora. Imagino que esta foto deva ter contribuído em muito como inspiração.



9-Rita Lee e Roberto de Carvalho – “Rita Lee e Roberto de Carvalho”(1982)





Eu mal falava, mas já achava xexelenta a lona azul usada de mar falso no começos dos anos 1980, quando meus pais adquiriram este LP. Três décadas depois, minha opinião não muda, embora agora admire o desprendimento do casal por tal opção estética.



8-Nick Cave and The Bad Seeds & Kylie Minogue – “Where The Wild Roses Grow” (single, 1996)





Ainda falarei mais sobre esta sombriamente bem-sucedida parceria. Por hora, contemplemos o aperitivo do notável clipe, com Kylie “morta” diante de um Cave inconsolável.


7-Rain Parade – “Crashing Dream” (1986)




Piscinas são tão fotogênicas que ainda voltarão a enfeitar listas deste blog, aguardem. Fiquem com um aperitivo.


6-PJ Harvey – “To Bring You My Love” (1995)




Outra capa extraída de um videoclipe (no caso, o sexy “Down by The Water”), de outra ex-musa de Nick Cave. Eu sinceramente não me lembrava, mas parece que na metade da década de 1990 boiar diante das câmeras foi, como diria minha amiga Nana Caetano, “tendência”.


5-Gal Costa – “Água Viva” (1978)




 Houve um tempo em que as consagradas cantoras de MPB ainda arriscavam alguma surpresa. Nem que fosse na capa de seus discos.


4-Ney Matogrosso – “Mato Grosso” (1982)

Seguramente o mais à vontade entre os submersos desta lista. Para os estupefatos com o tamanho da tanga de Ney na foto, suspeito que a simples concessão de seu uso pelo cantor possa servir de consolo.







3-Fugazi – “Red Medicine” (1995)



Batendo olho pela primeira vez, vocês provavelmente podem perguntar que catso faz esta capa aqui. Mas é só prestar atenção: a parte de baixo do projeto é uma foto invertida para da banda pegando jacaré. Eita marzão bom...



2-Slint – “Spiderland” (1991)




Há três anos vi aqui um show da turnê que marcou a volta desta cultuada banda americana, tida como muitos como a precursora do chamado “post-rock”. Será difícil detalhar isso em palavras, mas estar em um lago perdido no meio de uma pedreira deserta do Kentucky contemplando o nada de forma prazerosa, só com a cabeça de fora, não seria uma má forma de descrever a sensação de testemunhar o som do quarteto ao vivo. Ah, e a sensacional foto foi tirada por Will Odham, também conhecido como Bonnie “Prince” Billy.



1-Marcos Valle – “Previsão do Tempo” (1973)



Percebam novamente o “efeito piscina”. O curioso é que, virada a foto de ponta-cabeça, ainda parece o Marcos Valle.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

2000-2009: The iPod Years (Parte 2)


5-TV On The Radio - "Return to Cookie Mountain" (2006)




Se juntássemos a quantidade de lixo produzido em nome da sagrada herança musical negra nestes últimos dez anos, teríamos material para uma playlist eterna. Com a transformação de algumas vertentes do hip-hop em máquina de dinheiro em meados da década passada, o oportunismo e o mau gosto disseminaram pelas rádios e MTV um farto catálogo de pragas: canastrões de canto choroso, gostosas sem talento, rappers que contam vantagem cuspindo idéias neolíticas sobre a vida em geral, e odiosos duetos entre estes dois últimos exemplares da fauna.
Aí é que entra o TV On The Radio. Em uma visão rasa e racista, alguém poderia dizer que a banda novaiorquina é interessante por trazer músicos negros que não necessariamente apostam por R&B, ou gangsta rap, ou alguma dessas estéticas tão desgastadas normalmente associadas aos músicos afroamericanos contemporâneos.
Mas é óbvio que vai muito além disso. O TOTR impressiona porque criou em seus três álbuns ("Cookie Mountain" é o segundo) um mundo particular. E tal concepção rolou justamente porque seus integrantes souberam absorver e dar novos significados às pepitas desta mina de ouro que é a tradição musical dos EUA. E não lapidaram apenas as pepitas negras, por supuesto.
Este carismático planeta mostra sua geografia inconfundível em apenas 20 segundos de "I Was a Lover", a primeira faixa de "Return to Cookie Mountain". Estão, nestes poucos compassos, todas as marcas do grupo. Batidas quebradas desdobradas confrontadas a paredes vocais inspiradas pelo doo wop dos anos 50. Dando a liga, colchas de guitarra shoegaze coreografam com estranhos samples e teclados de ecos experimentais.
E, enquanto tentamos captar todas as nuances das vozes - atenção para os falsetes deslumbrantes do guitarrista Kip Malone -, nos convertemos em habitantes felizes de um território que ainda tem muito a ser explorado.
*Uma música: "A Method"


4-Beth Gibbons & Rustin' Man - "Out of Season"




É uma constatação cruel saber que o mundo fica mais belo quando Beth Gibbons está triste. Mas trata-se da mais pura verdade, e a gente já sabia disso desde "Dummy" o primeiro disco que a banda dela, o Portishead, lançou lá em 1994. Quando você a vê ao vivo num palco - os olhos fechados, o cenho franzido em desconsolo, a coluna arqueada em ângulo côncavo -, a vontade que dá é de levá-la para casa e envolvê-la num cobertor.
E, se Gibbons já nadava num mar de solidão quando cercada das cortinas de samplers e texturas do Portishead, imagine a distinta donzela inglesa quando despida de toda aquela áurea de mistério, e vista de muito perto. O que acontece, então, é a exposição das feridas de alguém que sofre, sofre e sofre, mas aguenta o tranco até o fim porque sabe que transformará a dor em arte. Pois, como geme Gibbons em "Sand River", "beauty's got a hold on me".
E, para que canções tão lindas e sentidas ganhassem um entorno à sua altura, o ex-Talk Talk Rustin' Man foi o maestro soberano. Costurou uma delicada teia de violões, órgãos, baixo acústico, cordas, metais, acordeom e outros tecidos típicos do folk renovado para converter os lamentos-canção da colega, se é que isso era possível, em épicos do intimismo.
Na imersão dos climas e versos, Gibbons ainda demonstra o porquê de ser uma das cantoras mais especiais dos últimos anos, remetendo tanto a Nick Drake quanto a Billie Holiday, entre outras lendas do sofrimento cantado. Mas não vá se desesperar por tanto desamparo. Siga os conselhos da própria Beth na maravilhosa "Tom The Model":
"You know you don't ever have to worry 'bout me/

I'd do it again".

*Uma música: "Sand River"


3-Radiohead - "In Rainbows" (2007)



Antes que a TORA (Torcida Organizada Radiohead te Amo) manifeste seu repúdio à ausência de "Kid A" nesta lista, é importante relatar alguns bastidores. Seguindo o regulamento do Mala da Lista de acordo com o qual uma banda só poderia ter um álbum no Top 10 da década, a idolatrada bolacha de 2000 jogou uma empenhada prorrogação com "In Rainbows". O empate persistiu, o que acabou levando a decisão às penalidades máximas. E aí na hora H, não teve jeito, apesar do talento dos batedores de "Kid A": Thom Yorke (tirombaço no ângulo), Jonny Greenwood (com efeito e paradinha), Ed O'Brien (toque seco no canto), Colin Greenwood (toque seco no meio) e Phil Selway (no contrapé do arqueiro).
"In Rainbows" venceu a eliminatória porque, antes de mais nada, ele É um pouco "Kid A". E É um pouco de "The Bends", "OK Computer", "Amnesiac".... suas dez faixas atestam que Yorke e equipe perceberam que não precisavam mais dedicar tanto tempo revirando do avesso as estruturas da Canção, ou descobrindo timbres tão ousados, ou criando atmosferas de tal estranheza para chegar "lá". A banda pop mais importante da década concluiu que, com seu arsenal composto por uma voz imortal, acordes e melodias insuperáveis e uma infinidade de ideias para arranjos originais, tudo poderia ser mais simples e natural.
Se "Kid A" era uma viagem sem volta a lugares jamais antes visitados - o álbum soa exatamente como uma regata, em barco também de gelo, às paisagens polares de sua capa-, "In Rainbows" é a assimilação desta trip na forma de melhores e mais objetivas canções. Que, para conforto da TORA, vêm embaladas em impenetráveis películas do experimentalismo acumulado em seis outros trabalhos de estúdio.
E que contam com algumas das melhores interpretações vocais da vida de Yorke. Vide "All I Need", "Videotape" e, sobretudo, "Nude", em que ele encarna uma espécie de Smokey Robinson pálido e tristonho anunciando a era glacial que se aproxima.
Nada, portanto, como a maturidade de quem sabe o que significa ter que continuar lançando álbuns, e que está ciente da expectativa que paira sobre eles. Mesmo após já ter dado ao mundo um "OK Computer" ou um "Kid A". Que venha o próximo.
*Uma música: "House of Cards"


2-Strokes - "Is This It" (2001)




De certa forma, "Is This It" é o "Nevermind" dos 00. Mais do que coincidência, o fato dos dois álbuns terem sido lançados nos primeiros anos de suas respectivas décadas foi sintomático. A ruptura proporcionada pelo trio de Kurt Cobain foi mais necessária, porque no final dos anos 1980 a situação do rock no mainstream era realmente crítica (Poison e Skid Row dominavam as paradas). Mas no crepúsculo dos 1990, com boybands e britneys dando as cartas e a eletrônica como um das únicas válvulas de escape de renovação, o rock também precisava de uma injeção de energia.


E "Is This It" foi bem mais do que uma dose cavalar desta energia. O disco acabou sendo o beabá de como este tal de rock seria resgatado pela milhonésima vez. Agora (ou melhor, lá em 2001), segundo a cartilha de Julian Casablancas e aqueles outros quatro guaperas, se daria bem quem pesquisasse o que aconteceu em Nova York entre 1967 e 1979. Em termos de música, visual e o estilo "sou novaiorquino, mando bem e não estou nem aí".
De Velvet Underground a Blondie, dos Ramones ao Television, não houve proto-punker que não comparecesse, ainda que na forma de uma leve citação, no coquetel estroqueano. Com a diferença - e uma importante diferença - que nenhuma destas vacas sagradas, com exceção dos Ramones, reuniu jamais gemas pop roqueiras tão irresistíveis em um mesmo álbum. Tanto foi assim que "Is This It" virou o disco de rock a ser batido na década... e pelo menos até o quinto bimestre de 2009 ainda não foi superado.
Como efeito colateral, da mesma forma que o Nirvana gerou o Silverchair e o Creed, e o grunge se desgastou relativamente rápido, o "novo rock" dos Strokes tem sua parcela de culpa indireta. Pela inspiração que infringiu às bandas emo e a toda esta classe de bundões sem imaginação que fizeram com que, no final da década, já estejamos de saco cheio desta estética pós-punk recuperada. O que era vanguarda virou um modelo cansativo: todas as batidas têm que ter a "urgência" disco-rock, os vocais são obrigatoriamente chorosos, os teclados precisam porque precisam emitir melodias melancólicas e grandiloquentes, e as letras que não forem meio engraçadinhas, irônicas, são descartadas.
2011 se aproxima e alguém precisa passar o rodo nesses aproveitadores e servir às massas alguma outra espécie de "novo rock". A missão dos Strokes já está mais do que cumprida.
*Uma música: "Modern Age"




1-OutKast -"Speakerboxxx/The Love Below" (2003)




Pesquisando uma resenha que escrevi na ocasião do lançamento deste álbum duplo, publicada em dezembro de 2003 pelo site da MTV (não passo o link porque não está mais lá), achei a frase: "é sério candidato a disco do ano e desde já corresponde a um marco na black music". Lembro de, naquele momento, refletir sobre a possibilidade de estar, na verdade, diante da obra-prima da década. Mas dei de ombros a meus próprios pensamentos, numa bipolaridade cética, ainda que cautelosa. Afinal, estávamos apenas no quarto anos dos 00.
Seis outros se passaram e agora eu posso anunciar que "Speakerboxxx/The Love Below" é (são), sim, o(s) disco(s) da década.
A começar pela ousadia do projeto, em realidade a soma de "Speakerboxxx", um álbum produzido e protagonizado por uma metade da dupla, Big Boi, e "The Love Below", comandado por seu companheiro Andre 3000. Por isso os parênteses do paráfrago anterior, indicando os plurais. Até a capa é dividida. Em cada um dos CDs, o "outro" era apenas um convidado e não metia muito o bedelho. Nem os Beatles se atreveram a fazer isso. E olha que com eles isso seria possível, já que quase sempre eram nítidas quais eram as músicas de Paul e quais as de John.
A iniciativa não só foi um êxito musicalmente, mas acumulou recordes comerciais e prêmios pomposos: papou o Grammy de Álbum do Ano do ano e é o título de hip-hop mais vendido da história dos EUA, com 11 milhões de cópias vendidas (ou 5,5 milhões + 5,5 milhões, é assim que se contabilizam as bolachas duplas). Claro que aqui ninguém se preocupa com o Grammy, mas é curioso quando seus ganhadores são também um exemplar discográfico de excelência.
No caso do petardo duplo do OutKast, o principal indício desta excelência, sem dúvida, foi a pretensão bem-sucedida de derrubar barreiras entre o que se espera dos rappers e a quantidade de estilos pelos quais os mais talentosos deles podem transitar. Caso se aventurem, é lógico. Neste sentido, sob o filtro da lente pop, o trabalho está muito mais para TV On The Radio do que para Snoop Dogg.
Pelas contas do Mala da Lista, das 29 músicas propriamente ditas (excluindo as 11 vinhetas) espalhadas pelas duas horas e quinze minutos de "Speakerboxxx/The Love Below", 22 são essenciais, além de perfeitamente aptas a hit. Uma matemática insana que, novamente, pode não ter sido obtida nem pelo "White Album".
E o fenômeno "Hey Ya!", o megasucesso que até o Roupa Nova regravou, surpreendeu a tal ponto a própria gravadora que praticamente não ouve tempo para promover outras "músicas de trabalho". Uma delas, "Roses", por exemplo, é uma das melhores canções pop não só desta, mas de todas as décadas. E acabou passando relativamente despercebida pelo grande público.
"Speakerboxxx", o primeiro disco, não tira o pé do acelerador até sua metade. Ainda que tenha se mantido um pouco mais atado à tradição dos discos hip-hop moderno - os interlúdios, as várias participações de peso (de Jay-Z a Cee-Lo), as complicadas rimas -, Big Boi foi revolucionário. Flertou com miami bass ("Ghetto Music"), funkeiras ao estilo P-Funk ("Bowtie"), a canalhice em hibernação do Earth Wind & Fire ("The Way You Move") e vanguardistas bases ("War"). Na segunda parte, segue uma pegada não tão inovadora, mas com elementos interessantes distribuídos por todas as faixas restantes.
Quando chegamos em "The Love Below", o segundo disco, o buraco é bem mais embaixo. E para mim o impacto ainda foi maior, porque acabei escutando-o antes de "Speakerboxxx". Não intencionalmente, o que ocorreu foi que a prensagem enviada pela Sony-BMG aos jornalistas estava com os nomes trocados. A gravadora fez uma espécie de recall de fábrica, mas no Mala da Lista o dano já estava causado.
Sozinha, a parcela que cabe a Andre 3000 neste latifúndio provavelmente já garantiria o caneco da década para a dupla. Uma gorda nuvem de inspiração sobrevoou o sujeito durante a produção das canções, que em seu caso foi bem mais individualista, sem quase espaço para participações.
Sim, eu ia dizendo canções. Pois Dre deixou o elemento rima quase totalmente de lado, utilizando-o em posologia discreta - como se seus raps fossem um solo de guitarra ou sax -, e resolveu cantar. E, se como solista sua voz despontou como um jovem e ainda mais escrachado Sly Stone, nos coros elas são de uma esperteza que não se ouvia desde os melhores momentos do Funkadelic.
Um leque de possibilidades que se multiplicou com a opção de 3000 em usar, em sua visionária irresponsabilidade, jazz ("Love Hater"), funk ("Behold a Lady") e psicodelia ("She's Alive"), entre outros sabores, para dar corpo a suas ideias. O arranjo de cordas ao final de "Pink and Blue" é emocionante, enquanto o doce dueto com Norah Jones em "Take Off Your Cool" dá a mensagem da década: "baby, take off your cool / I wanna see you".

Some-se a isso a capacidade de 3000 de extrair algo legitimamente novo a partir de múltiplas influências e seu hábito de pensar musicalmente com a cabeça de baixo (até no nome do disco), e entendemos porque ele foi comparado a Prince. Um paralelo adequado, eu diria, mas com o adendo de que 3000 tem mais senso de humor e menos ambiguidade sexual que baixinho. De uma forma ou de outra, o cara é um gênio dos 00 do qual nos lembraremos.

*Uma música: "Roses"