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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Meio século de Beatles em meia dezena de canções


Exemplar da tiragem 1 de "Love Me Do/P.S. I
Love You", cujo lançamento completa 50 anos
hoje (Foto: Beatles-64)

A lista de número 100 do Mala da Lista aparece enquanto o Fim do Mundo se aproxima, de acordo com o calendário maia. Mas, para a comunidade internacional de milhões de beatlemaníacos, nada mais importa do que hoje, 5 de outubro, o 50º aniversário do lançamento do primeiro compacto dos Beatles, editado no Reino Unido pelo selo Parlophone, ligado à EMI.

Trazendo 2 minutos e 22 segundos de pura magia no lado A com “Love Me Do” e 2 minutos e seis segundos de encantamento melódico juvenil no lado B com “P.S. I Love You”, duas autênticas amostras da denominação de origem Lennon-McCartney - embora mais McCartney do que Lennon –, o début de sete polegadas mudou para sempre o mundo.

Desde então, além de toda a revolução musical promovida pelos Fab Four, fenômenos típicos do século 20, como a transformação de personalidades pop em semideuses e em artigos altamente vendáveis, também ganhariam novas proporções. Algo que se nota não apenas na infinidade de conteúdo e produtos já produzidos a respeito dos quatro roqueiros de Liverpool, mas também nas letras de algumas boas canções sobre eles.

Separei cinco destas composições que trazem um ou dois integrantes dos Beatles como personagens. Menções honrosas para “Jesus Chorou”, dos Racionais MC’s, e “Assassino”, do astro da no wave gaúcha Tony da Gatorra, ambas incluindo John Lennon em listagens de pessoas famosas que pregavam a paz.

 A seleção com canções sobre a banda como um todo, e o ranking de faixas nas quais os próprios besouros se auto-referenciam ou trocam farpas entre si, também bastante promissoras, ficam para depois.


5-Shelley Plimpton x George Harrison– “Frank Mills” (1968)

Aqui a menção vai para o Quiet Beatle, George Harrison: “Ele foi visto pela última vez com seu amigo / Um baterista, parecido com o George Harrison dos Beatles”. Tema extraído do mítico espetáculo “Hair”, cuja estreia na Broadway ocorreu em 1968. Os Lemonheads fizeram versão no bom disco “It’s a Shame About Ray” (1992).

4-Caetano Veloso x John Lennon e Ringo Starr – “Cambalache” (1969)

Adaptando em grande estilo um velho tango de Enrique Santos Discépolo (1901-1951), Caetano incluiu referências a dois beatles nos lugares que, na composição original, eram dedicados ao compositor Igor Stravinsky e ao astrônomo Luigi Carnera. O resultado ficou assim: “Misturem-se Ringo Starr,Van Don Bosco e La Mignón, Don Chicho e Napoleón, John Lennon e San Martín”. No vídeo abaixo, foi utilizada como trilha sonora de imagens de manifestação ocorrida este ano em Barcelona.

3-Milton Nascimento x John Lennon e Paul McCartney – “Para Lennon & McCartney” (1970)

Mesmo sem referência direta (o refrão diz “Mas agora sou cowboy/ 

Sou do ouro / eu sou vocês”), trata-se de um “pedaço” de homenagem à genial dupla.


2-Odair José x John Lennon - “Eu queria ser John Lennon”

“Eu queria ser John Lennon um minuto só / Pra ficar no toca-discos e você me ouvir”. Eis a sabedoria popular devidamente beatlemaníaca do veteraníssimo Odair. Com direito à pronúncia “John Lêno”.

1-Devendra Banhart  x Paul McCartney e Ringo Starr – “The Beatles” (2005)

O neohippie meio venezuelano meio americano Devendra se espanta já na primeira estrofe: “Paul McCartney e Ringo Star são os únicos Beatles no mundo!”. E é só. Depois ele aperta a tecla sap e recupera uma velha cantiga sobre não matar o toureiro, e sim o toureiro, mandando também um salve para Donovan e Marc Bolan.
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quarta-feira, 30 de maio de 2012

It was 45 years ago today




Ou quase isso. É na próxima sexta-feira, 1º de junho, o 45º aniversário do lançamento de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.

Para muitos, a obra mais importante e inovadora dos Beatles – eu adoro, mas considero “Revolver” o grande divisor de águas -, segundo outros tantos o melhor álbum da história e na opinião de alguns, até – como o escritor americano John Sellers, que classifica o oitavo trabalho de estúdio do Fab Four como “constrangedor” -, apenas um disco supervalorado.

Destrinchar “Sgt. Pepper’s...” musicalmente renderia horas de chuva no molhado. Para isso, melhor mesmo é se debruçar sobre livros como “Um ano na Vida dos Beatles e Amigos” (2007), do inglês Clinton Heylin, que investiga o que outros artistas com aspirações vanguardistas (de Velvet Underground a Pink Floyd) estavam aprontando enquanto os rapazes de Liverpool preparavam seu produto mais famoso. Minha sogra foi quem me deu (por isso ela é a minha sogra).

Mas o Mala da Lista prefere abraçar a pegada metalinguística da proposta da capa do disco, assinada por Peter Blake e Jann Harworth, na qual os Beatles celebram as personalidades que mais admiravam (de Marlon Brando a Bob Dylan, passando por Oscar Wilde e William S. Burroughs) posando como a "banda do Sargento Pimenta" na companhia de suas versões em papelão, tamanho natural.

Ficamos então com as dez melhores entre as dezenas de “releituras” do projeto de Blake e Harworth. Claro, porque também em termos de portadas satirizadas ou reverenciadas, ninguém bate os Beatles. Alguns sites especializados contabilizam até 79 sátiras ou homenagens à portada da bolacha (se contarmos as capas de álbuns como “With The Beatles”, “Let It Be” e principalmente “Abbey Road”, o número dispara).

10-Def Leppard - “Songs From the Sparkle Lounge” (2008)


Um astronauta aqui, um transformista ali, um gato, e várias fotos dos integrantes da banda em diferentes épocas. Para quem esperou mais de 40 anos para ter essa ideia, podiam ter aparecido com algo melhor.

 9-Devendra Banhart – “Cripple Crow” (2005)


With a little help of his friends, Devendra consagrava o neo-hippismo do terceiro milênio.

 8-Jun Fukamachi – “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1977)



Este levou a sério demais a mania de procurar mensagens subliminares em audições do disco de trás para frente.

 7-Peter Knight and His Orchestra – “Instrumental Beatles Themes From Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (196?)



Gosto de personagens como o tiozão de maleta e chapéu na ponta direita, e ainda mais do logo da banda fictícia criada por Paul McCartney – que já pensei em tatuar – colado nos livros. This list is getting better all the time.

 6-Vários – “Burning Ambitions: A History Of Punk” (1991)


Falando em livros, esta seria uma trilha sonora adequada para clássicos sobre o punk e o pós-punk como “Mate-me Por Favor” (1997), de Legs McNeil e Gillian McCain, e o fantástico “Rip it Up and Star Again” (2006), de Simon Reynolds. Toda tchurma está aí. Mark E. Smith (The Fall), Clash, Sex Pistols, Jello Biafra (Dead Kennedys), Andy Warhol...

5-Vários – “The Exotic Beatles Part II” (1995)


Coletânea de bizarras covers beatlemaníacas muito bem representada graficamente.

4-The Simpsons – “The Yellow Album” (1998)


Lovely Lisa. Troféu melhor sacada para a família Simpson desenhada à esquerda com os traços toscos das primeiras temporadas. Citação antropofágica vintage, como a reprodução dos jovens Beatles na capa original.

3-Macabre – “Sinister Slaughter” (1993)


Um corriqueiro day in the life durante o período de criação deste álbum envolvia os integrantes da banda americana de death metal pesquisando obsessivamente sobre serial killers verdadeiros, para finalmente comporem canções sobre estas dóceis criaturas. São elas que aparecem também na capa. Vai encarar?

2-Zé Ramalho – “Nação Nordestina” (2000)


Um primor. E se tivesse que ficar com um dos lindos objetos decorativos, seria a foto desbotada do casal, que não deve faltar em casa nordestina que se preze. Sobre o personagem, nem pestanejaria: Maguilão (à esquerda) na cabeça.

 1-The Mothers of Invention “We’re Only in It For The Money” (1968)


Frank Zappa (1940-1993) zombava dos hippies. Se espantava com o fato de que levassem tão a sério as mensagens do Flower Power, e achava que bandas como os Beatles havia transformado aqueles ingênuos anseios em simples produtos comerciais.

Trajando vestido curto e maria-chiquinha à frente da banda – igualmente travestida -, o Bigode vai para o trono pela coragem de questionar algo tão unânime e com tal velocidade – menos de um ano depois – e por trazer Jimi Hendrix (1942-1970) como convidado. Não um Hendrix de papelão, como o conceito original de “Sgt. Peppers...” determinava, mas o mítico guitarrista em carne e osso, na ponta direita. Foram inicialmente censurados pela gravadora, apesar do próprio Zappa ter telefonado para Paul McCartney pedindo permissão para o sarro.

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Happy Anniversary



Parece que foi ontem que o post Um Lobisomem Americano em Peruíbe inaugurou este blog. Mas não, a estreia completa hoje exatamente um ano. E para celebrar estes primeiros 365 dias, ou 48 posts sobre 45 assuntos, o Mala da Lista dá os parabéns a si próprio com uma seleção de melhores canções sobre aniversário. Um terreno, aliás, pelo qual navegaram dezenas e dezenas de artistas, de The Roots a Uriah Heep. Um Top 5, vai, porque se não também é muita auto-bajulação.

*Menção honrosa para “Happy Anniversary”, hilária música que a banda fictícia The Quadratics canta na corrosiva película “Welcome to The Dollhouse” (1995), de Todd Solondz (“Happiness”, “Palindromes”). Não liberam isto na rede de jeito nenhum.

5-Stevie Wonder – “Happy Birthday” (1980)

A recente aparição de Stevie em Glastonbury contou com esta homenagem ao megafestival inglês, que em 2010 completa 40 anos. Engraçadíssima a participação vocal sem noção do criador do evento, Michael Eavis.



4-Ira! - “Envelheço na Cidade” (1986)

Um clássico para qualquer um nascido no Brasil entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira dos 1980. Sempre me intrigou a escolha do verso “envelheço na cidade”.





3-Beatles – “Birthday” (1968)

Impressionante esta versão de Paul em carreira solo para a pedrada do “White Album”. É fascinante ver as canções que os Beatles nunca tocaram ao vivo sendo executadas à perfeição no palco.




2- Curtis Knight – “Happy Birthday” (196?)

Um certo Jimi Hendrix acompanhou o obscuro soulman Curtis Knight pouco antes de despontar para o estrelato. E o cara não queria nem saber: metia sobrecargas de wah-wah e reverbs nas levadas de guitarra sem nem perguntar se poderia. Seu estilo estava mesmo em seu DNA. No começo dos anos 1990, a base de bateria e baixo desta canção seria magistralmente sampleada por e Urban Dance Squad (a série de vinhetas “Life’n Perspectives”) e Beastie Boys (“Jimmy James”).




1-Sugarcubes – “Birthday” (1988)

Há quem trocaria toda a experimentação da discografia solo de Björk pela objetividade melódica e beleza desta única faixa de sua ex-banda. Não que a canção – o primeiro single dos Sugarcubes – fosse algo parecido com algo que alguém já houvesse escutado antes. Se a islandesa ainda surpreende em seus atuais álbuns, dá para imaginar o impacto de “Birthday” em seu lançamento, há 22 anos. O clipe também antecipava o leque de peripécias visuais que ela tanto exploraria em sua trajetória individual, com direito a um jantar bizarro nas misteriosas termas de seu longínquo país. Ah, e que pitelzinho era Björk naqueles dias...











domingo, 18 de abril de 2010

Chuva, Chuva, Chuva



Já dizia Butthead: “rain sucks!”

Com todo o respeito a quem passa meses, anos esperando gotas de chuvas para resolver o inferno da aridez, e com toda consideração ao vulcão da Islândia, os recentes tsunamis e terremotos: eu não poderia estar mais de acordo com o tosco teen aparelhudo. Chuva é uma merda. Nunca gostei, acho que estraga tudo. Como vem estragando, e aí o assunto é bem mais sério, vidas e casas nas várias enchentes ocorridas em diferentes estados do Brasil durante as últimas semanas.

Tem chovido tanto, mas tanto – cada page view que dou em sites brasileiros meu teclado sai molhado – que não vai dar para escapar, nem de caiaque, de um Top 10 com músicas sobre a chuva, ou que tragam a maldita como elemento importante.

Um top 10 onde não há muito espaço para odes saltitantes aos pés d’água (coisas como “Singing in The Rain”, “Chovendo na Roseira” e “I Love the Rain” – só o burocrata Lenny Kravitz para compor uma canção com este nome – ficam de fora). Mais válidas aqui são as chuva que se infiltram nas crises, que lavam os desamores e que lubrificam a capacidade poética dos compositores. Chuvas reais ou alegóricas, roxas ou translúcidas que, enquanto estiverem enchendo os reservatórios da boa música, servirão para o consolo, e não o afogamento, das pessoas que perdem entes queridos nas encostas barrentas.

*Menção honrosa para “Rain Dogs”, de Tom Waits, mais sobre cachorros molhados do que sobre a chuva em si, e o standard “Come Rain or Come Shine” (a versão de Ray Charles mata a pau), em que o condicional “faça chuva ou faça sol” é apenas mais uma desculpa para o cara pegar a gatinha do que qualquer outra coisa.



10-The Cure – “Prayers for Rain" (1989)

Qualquer faixa de “Disintegration”, o “Sgt. Peppers” dos melancólicos, é digna de alta nota. Esta, em que um deprimidíssimo Robert Smith geme as dores de um amor mal-acabado, não é exceção. O vídeo é tirado do impecável DVD “Trilogy”, de 2002.




9- Supertramp - "It’s Raining Again” (1982)

Poderia estar na lista das músicas que dão vergonha de gostar. Eu não me importo. E faço aqui uma homenagem não só ao soft pop caretão (observem a pinta dos músicos e do público) como também a meu amigo Marco. Produtor que começa a despontar na cena musical indie espanhola, este italiano pilota as mesas de som de concertos de nomes festejados internacionalmente, como Delorean e El Guincho; mas, quando o expediente acaba, ele gosta mesmo é de se trancar no estúdio, ver vídeos de partidas de seu sofrido Napoli, e escutar Supertramp no último volume.




8-Lobão – “Me Chama” (1984)

A balada definitiva do pop nacional não seria a mesma se não tivesse chovido no dia em que Lobão tomou este pé na bunda. Aqui choramingoso como um lobinho, o carioca apela: “chove lá fora e aqui / Faz tanto frio”. Claro que, após ouvir a canção pronta, a musa em questão deve ter reabrido as portas e dado, no mínimo, uma toalha ao cantor. Ah, e alguém pode me explicar o que é isso que passa sobrevoando entre os 37 e 51 segundos do clipe? Parece um molho de chaves. Ou seriam os Ronaldos (a banda do Lobo à época) em versão diminuta?




7-R.E.M. – “So. Central Rain” (1984)

O mais legal é que a palavra “rain” não é mencionada em nenhum verso desta música. Ou seja, pelo título e pelo resto da letra é que sentimos o clima: uma ligação não foi feita a alguém, um pedido de desculpas esteve envolvido, e enquanto isso a “tempestade do sul-centro” encharcava as angústias sem tréguas do eu-lírico. O R.E.M. tem outra composição que fala bem mais da dita cuja, “I’ll Take the Rain” (2001), mas esta, além da sutileza poética, abocanha o posto por ser um clássico dos primeiros anos da banda. Tudo fica ainda melhor neste vídeo histórico, a suposta primeira aparição do então quarteto em rede nacional nos EUA, durante a qual Mike Mills e Peter Buck discutem preços de discos com David Letterman. Uma versão tão antiga que a canção ainda nem tinha sido batizada (o programa é de 1983, antes do lançamento do disco em que estaria contida, “Reckoning”, do ano seguinte).




6-Jorge Ben - “Chove Chuva” (1963)

“Pra a chuva parar / de molhar o meu divino amor”. Isso na versão original, com a bossa desconstruída do primeiro disco de Jorge (“Samba Esquema Novo”), é difícil de ser superado. Até mesmo pelo próprio, que tem um outro grande hino “chuvoso”: “Que Maravilha”, como os versos “Lá fora está chovendo...”.




5- B.J. Thomas – “Raindrop Keeps Falling on my Head” (1969)

Se prestarmos atenção na letra, é uma metáfora para “merda acontece, continuará acontecendo, mas nem por isso temos que aceitá-la, e devemos seguir adiante”. Toda uma lição criada pelos gênios da água com açúcar Burt Bacharach e Hal David, traduzida pela voz do orelhudo BJ Thomas (reparem). Magia pura ele cantando na frente das estúpidas coreografias dos bailarinos com coletes e guarda-chuvas. Novamente, um brinde ao soft pop.




4-Beatles – “Rain” (1966)

Se está chovendo ou não, não importa, já que tudo é uma questão de percepção. Ou pelo menos dizia John Lennon na letra desta maravilha. Os Beatles haviam entrado definitivamente para o time dos psicodélicos, e precisavam dar o recado. “Rain”, lado B do single “Paperback Writer”, é testamento da acidez pop não só por inaugurar a era dos sons gravados ao contrário, mas também pelos olhinhos caídos de chapado de maconha de Paul McCartney no vídeo (ele também estava com um dente da frente quebrado no momento da gravação, por causa de um acidente de moto). Aliás, para George Harrison, eles também “inventaram a MTV” ao criar essa peça promocional da canção e enviá-la ao programa de Ed Sullivan, já que não tinham mais saco para comparecer ao vivo no estúdio.




3-Prince - "Purple Rain" (1984)

Até hoje não chego a conclusões sobre o que seria exatamente a “chuva roxa”, mas com certeza deve ser alguma sacanagem do Baixinho. Não sei se é a guitarra do começo, ou o eco da voz, mas há uma dose de eterna nostalgia nesta canção que poucas outras alcançam nos cérebros introduzidos à música nos anos 1980.




2-Eurythmics – “Here Comes The Rain Again” (1983)

Acordes menores, sintetizadores pomposos, falésias, xales, lampiões, seculares casas de pedra. Melancolia eighties saltando pelos poros. Caindo em nossas cabeças como uma memória, da mesma forma que a chuva caía sobre Annie Lennox e Dave Stewart.



1-Bob Dylan - "A Hard Rain’s A-gonna Fall” (1963)

Há 50 anos, Bob Dylan vem se esquivando do rótulo de Messias Salvador que lhe impuseram no início de sua carreira. “I’m not the one you want, I’m not the one you need’, já dizia ele em 1964 com “It Ain’t Me Babe”. Mas, se pensarmos bem, era bem difícil de não entrar na onda. Dylan pegava a estrutura da folk music americana, musicalmente simples e normalmente base para letras voltadas para o cotidiano e o trabalho, e escrevia grandes tratados enigmáticos dos quais transbordavam imagens que nem o próprio saberia explicar. Poderiam ser interpretadas, no final das contas, de mil maneiras. No caso de “A Hard Rain’s A-gonna Fall”, a chuva do título foi automaticamente taxada de “ácida”, por causa das tensões nucleares da época em que foi escrita, o auge da Guerra Fria. Ele disse que era simplesmente uma chuva das grandes. Que, segundo os versos, viria para lavar o mundo testemunhado pelo homem que já viu e fez de tudo nesta vida, de ter atravessado “sete tristes florestas” a patinado por “uma dúzia de oceanos mortos”.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Gringos x Latim



Alertou o sempre atento blog Cilada Mental de que Mike Patton lançará disco com clássicos do kitsch pop italiano. Não será a primeira vez que o hiperativo vocalista do Faith No More se aventurará no idioma – em 1997 ele lançou o álbum ítalo-experimental “Pranzo Oltranzista” e em 2005 foi curador de coletânea em homenagem ao maestro das trilhas sonoras Ennio Morricone. E muito menos será seu début em línguas latinas. Já na primeira vinda do FNM ao Brasil, em 1991, o cara surtou com o português e aprendeu centenas de palavras e frases, as quais não parava de declamar em entrevistas e shows. Seu momento de glória foi um “la polízia va a tomar no cue!” num show no Olympia, em São Paulo. “Eu amo aprender idiomas o suficiente para que possa ofender as pessoas. Faz com que elas pensem que você gosta delas!” me explicou Patton sobre sua técnica em uma entrevista para a extinta Bizz em 2007. “Eu falo um pouco de português, mas há tempos não pratico”.

Lembrei então de nossa roommate, que na semana que vem parte de volta a Portland, nos EUA. Após quase três meses de Barcelona, o grau de seu aprendizado de espanhol pode ser medido pelo “what?” que ela soltou após ouvir um “hola, ¿qué tal?” há poucos dias. Sua performance patética ilustra a monstruosa dificuldade que ingleses-americanos-canadenses-australianos e afins costumam ter ao enfrentar as línguas latinas, ainda que elas os fascinem. E mesmo os gringos que têm suposta facilidade para novos beabás, como Patton, podem proporcionar preciosas e engraçadíssimas amostras do macarronismo. Uma coisa levou à outra e resolvi terminar um Top 10 que já vinha arquitetando, o de anglofalantes tateando na escuridão dos idioma latinos, essas galáxias de conjugações e fonemas que estão a anos-luz de sua compreensão.

Valem só as canções com versos criados pelo ou para o intérprete. Versões traduzidas ficam de fora, portanto (que dor é tirar “La Complainte du Partisan”, cantada por Leonard Cohen, por exemplo...). Selecionei as que considero as dez mais marcantes, incluindo aí as mais toscas, as mais bonitas, as mais sem noção, as mais engraçadas e as que mais funcionaram, simplesmente. Duas de português, duas de espanhol, duas de italiano e duas de francês. Poderia ter varado a noite em busca de algum popstar que tenha gravado algo na quinta língua latina mais mainstream – o romeno –, mas preferi completar a lista com dois brasileiros que foram garimpar idiomas mais underground da família latina. Vamos ver no que vai dar.


10-Mr Bungle macarroneia um italiano – “Violenza Domestica” (1995)


Começamos direto com um dos incontáveis - além de mais antigo – projetos de Mike Patton. Inclui até um “ma perchè?”, com sotaque razoável e a mãozinha de italiano no gesto clássico (todos as pontas dos dedos juntas, mão para cima e para baixo).




9-The Clash enrola em espanhol – “Spanish Bombs” (1979)

Começa bem. A melodia é das melhores de toda a discografia da banda, e a temática homenageia os soldados que fizeram frente a Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Mas o refrão dá uma desandada com frases um pouco sem pé nem cabeça: “Spanish bombs yo te quiero infinito, yo te quiero, oh my corazón". Que fica mais engraçado pelo “quiero” com som de “cuero” cantado por Joe Strummer e Mick Jones. O último aliás gostou da ideia e voltou ao spanglish na ainda mais clássica “Should I Stay or Should I Go”, que gravaram dois anos depois.




8-Beatles sem noção de italiano – “Sun King” (1969)

Eu imagino que nem Lennon e nem McCartney tinham mais muito saco para ficar pensando nos versos ideais, uma vez que já sabiam que estavam gravando o último disco dos Beatles, “Abbey Road”. E simplesmente ficaram a fim de enfiar umas palavras em suposto italiano para enfeitar uma canção de instrumental a arranjo vocais espetaculares, “Sun King”. Ligaram então um botão random imaginário e até um “obrigado” entrou na salada:

Quando paramucho mi amore de felice carathon.
Mundo paparazzi mi amore cicce verdi parasol.
Questo abrigado tantamucho que canite carousel.





7-Caetano arrisca um catalão – “Vaca Profana” (1988)

A letra fala de várias cidades brasileiras e européias, entre elas Madri e Barcelona, usando expressões e palavras bem espanholas, como “mala leche” e “pureta”, e aludindo à “Movida Madrileña”, o movimento cultural dos anos 1980 do qual participou Pedro Almodóvar, entre outros. Mas Caetano foi além. Citando Gaudí, as “ramblas do planeta” e dizendo que “também te mata Barcelona”, mandou ainda um “horchata de chufa, si us plau”. Bem para dizer que esteve mesmo na Catalunha: “si us plau” é “por favor” em catalão (reparem como é primo-irmão do “s'il vous plaît” francês), e “horchata de chufa” é um refresco doce bem daqui - e que eu nunca experimentei. Ou melhor, mais precisamente de Valência, que para os independentistas faz parte dos não-reconhecidos Països Catalans (Países Catalães). Uma discussão da qual vou poupar-lhes agora, e vocês ainda me agradecerão por isso.
*O vídeo tenta acompanhar cada verso com uma figura, é lamentável. Mas a música vale bastante a pena.






6-Stevie Wonder se aproveita do português - “Bird of Beauty” (1974)

Ritmicamente, é o caso clássico de gringo que foi tentar fazer um samba, não soou como o planejado, mas o resultado acabou sendo um groovão pra lá de interessante. Aí faltava dar o “toque brasileiro” extra. E aí é que mora o perigo: “tudo bem, você deve descansar a sua mente / Não faz mal o que vai acontecer daqui pra fente /Vai cantar alegria que chegou tão de repente / Voce coração assim tao feliz / Já vai cantar carnaval”. Um lance bem Zé Carioca, bem olelê-olalá do Sr. Wonder. Mas a gente perdoa porque a música é mó legal. Ah, e tinha vídeo de um show ao vivo, mas o embromation de português é incompreensível. Além de que a original de estúdio é muuuito melhor.




5-La Belle provoca em francês – “Lady Marmelade” (1974)

A célebre frase, "voulez-vous coucher avec moi ce soir?" (“você quer dormir comigo esta noite”), foi roubada de uma peça de Tennessee Williams, dizem os oráculos de internet. Mas, ao ser musicada, foi uma bola no ângulo em termos de gancho pop. Um refrãozão e tanto feito sob encomenda para as garotas do Labelle nos anos 1970 e reaproveitado por Christina Aguilera, Pink e outras – todas vestidas de piranhas - um quarto de século mais tarde.




4-Legião Urbana desenterra galego-português – “Love Song (Cantiga de Amor)” (1991)

Aqui o lance de musicar velhos versos foi bem mais profundo. Renato Russo e seus comparsas buscaram lá no repertório do trovador Nuno Fernandes Tornelo, do século XIII, uma cantiga de amor em galego-português, o idioma do norte da península Ibérica na época. O galego, uma das quatro línguas oficiais da Espanha moderna (as outras são castelhano, catalão e basco), é o portunhol institucionalizado. Ou melhor, é o “espanhês”, já que soa como se o espanhol tivesse se metamorfoseando em português, e não o contrário, como no dialeto sem-vergonha que os brasileiros improvisam quando vão a Bariloche. Sendo assim, as palavras podem ser a exata fusão dos dois idiomas. Por exemplo, temos “pessoa” em português, “persona” em castelhano e “persoa” em galego. Enfim. Aqui vai a letra da cantiga e a boa versão da Legião, que uma professora me apresentou em uma aula de literatura no primeiro colegial:

Pois naci nunca vi Amor
e ouço d'el sempre falar
Pero sei que me quer matar
mais rogarei a mia senhor
que me mostr'aquel matador
ou que m'ampare d'el melhor





3-Beatles rimam em francês – “Michelle” (1966)

Antes de aloprarem o italiano com “Sun King”, os Beatles criaram “Michelle”, cujos versos em francês, elaborados com a ajuda de uma professora do idioma, eram corretos: “Michelle, ma belle / Sont les mots qui vont très bien ensemble / Tres bien ensemble”. Não era preciso entender picas de francês, como é meu caso (aliás, tomara que esteja mesmo escrito certo isso aí em cima). Tratava-se da tradução do primeiro verso da música, em inglês, que queria dizer basicamente que “eram palavras que soavam bem quando combinadas” Todo um clássico, é claro.



2-Beck triunfa em espanhol – “Loser” (1994)

Eu já estava selecionando alguma das canções que do Pixies com trechos em espanhol quando a também sempre atenta e infalivelmente brilhante Anita me lembrou desta. Seria um crime deixar de fora uma música que, ao festejar o derrotismo, paradoxalmente triunfa em grande estilo. É o brado definitivo do spanglish: “Sooooy um perdedor / I’m a looser baby / So why don’t you kill me”. Fora o vídeo imperdível, bem do comecinho do Beck, em sua faceta mais “weirdo”.



1-Faith No More esculacha em português – “Caralho Voador” (1995)

Olha o Patton aqui de novo. E vem para levar medalha de ouro pela cara-de-pau generalizada: por compor uma bossa nova ao mesmo tempo chinfrim e irresistível; pela escolha do título; e por escrever “de orelhada” o trecho em português no encarte, cheio de erros hilários, e que faz com que nada faça nenhum sentido.

Eo non posso dirigir
E agora a pares
Neo dedu indehado
No neo naris


Fazendo as adaptações devidas, fica assim:


Eu não posso dirigir
E agora aparece
Meu dedo enterrado
No meu nariz


O que até faz sentido, mas ainda assim é bem absurdo. Melhor que isso só o próprio Faith No More encarnando os cantores de churrascaria os quais ironizavam com esta bossa de teclado Casio há quinze anos. Agora, com os quilos a mais do revival espremidos nessas camisas postas para dentro, aquela cena está completa.











terça-feira, 27 de outubro de 2009

Finados: eles não descansam em paz





Quando astros da música morrem, alguém sempre diz: "este não incomoda mais". E a frase não sai da boca apenas de quem não suportava os músicos recém-falecidos. Ela é proferida também, em coro, por aproveitadores que, ainda no velório, já estão tramando como lucrarão às custas do óbito daquele ídolo pop. "Merda vende, morte vende mais", resumia muito bem o trio Kleiderman (dos Titãs Branco Mello e Sérgio Britto) na canção "Get me Higher". É uma das leis do business sônico, não tem jeito, basta notar a rapidez com que se preparou "This is It", tal do filme com os ensaios da que seria a última turnê de Michael Jackson.

E, aproveitando que se aproxima o Dia de Finados (2 de novembro), o Mala da Lista exuma a cova de uma das espécies mais oportunistas de rentabilidade sobre cantores e bandas: os duetos ou outras colaborações póstumas. Criada graças à evolução das tecnologias de gravação nos anos 1990, esta foi a primeira modalidade de mash-up antes mesmo que o termo fosse inventado.

Já por princípio trata-se de um procedimento bastante discutível, por partir da decisão unilateral de alguém - um produtor, uma gravadora ou um músico mesmo - sem que o morto "homenageado" seja consultado. Haha, você dirá que é claro que isso não seria possível. Mas então por que, por via das dúvidas, não deixar tudo como está, para não correr o risco de ver um velho herói revirando no caixão? E ainda por cima, muitas destas "parcerias" não acrescentam em nada musicalmente e perdem para as versões originais, quando elas existem.

Sim, eu sei também que alguns destes encontros pós-mortem foram bem intencionados e resultaram em algo interessante. Mas, como na maioria dos casos predominaram a ganância e a picaretagem, este Top 10 começará pelos reencontros "místicos" que soaram melhor, passará pelos que apenas escapam e chegará aos piores e mais oportunistas. Não valem remixes, como o de Junkie XL para "Little Less Conversation", de Elvis Presley. E se os finados em questão não concordarem, que caia um raio sobre minha cabeça agora.




10- John Lennon + Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr -"Free as a Bird" (1995)

Praticamente tudo que envolve os Beatles opera a pelo menos um degrau acima do resto das bandas. Inclusive em se tratando da malfadada prática das gravações póstumas. A diferença em "Free as a Bird" é que sua proposta era a mais ambiciosa desta lista: os três então remanescentes do quarteto terminariam uma canção iniciada por Lennon, cuja fita demo caseira Yoko liberou de seus arquivos. Em seguida, mantendo os vocais originais do falecido beatle na parte 1 (a única que até então existia), a arranjariam e a gravariam.

Deu no que deu. Ou seja, uma canção à altura das melhores do grupo e também um dos raros exemplos de composição dos Fab 4 em que se observa nitidamente a junção de passagens criadas por John e Paul, como ocorrera em "We Can Work ot Put" ou "A Day in the Life". Desde logo que a ausência de Lennon ajudou o trabalho de seu desafeto fluir. E os genes melódicos de McCartney não decepcionaram nos trechos "What ever happened to?/ Life that we once knew". No segundo deles, aliás, o vocal de George Harrison leva às lágrimas o mais cético dos ouvintes de experiências discográficas póstumas. Incluindo este Mala aqui.




9- Marvin Gaye + Nona Gaye - "The Star-Spangled Banner" (2004)

Sim, Marvin Gaye tem uma filha que canta, este mulherão chamado Nona, que acabou virando atriz. Uma manobra inteligente, já que seu talento para música ficaria sempre à sombra e a anos-luz de distância do impacto do pai. Nesta solenidade esportiva de 2004, ela é o primeiro plano de mais um espetáculo "pai e filha unidos pela tecnologia" (ver item 2). Mas, ainda que Nona seja areia demais para qualquer de nossos caminhõezinhos, o que não dá mesmo é para tirar os olhos de Marvin no telão. Em outro megaevento do gênero, de 1983, ele rearranja o hino nacional americano de forma que a canção pareça de sua autoria, com direito a electro-batidinhas malandras no estilo de seu disco "Midnight Love", lançado no ano anterior.





8- Ray Charles + Count Basie Orchestra - "Ray Sings Basie Swings" (2006)

É caça-níqueis, mas um caça-níqueis de alta classe. Aproveitando que a morte de Ray Charles ainda era um assunto quente - ele fora desta para uma melhor em 2004 e no mesmo ano saíra o filme "Ray" -, um executivo da Concord Records não hesitou ao encontrar fita com gravações de um show do soulman de 1973. No registro, mal se escutava a parte instrumental, mas a voz de Charles se sobressaía intacta. E como na mesma noite a Count Basie Orchestra havia tocado, o mesmo produtor resolveu juntar lé com cré na forma de um disco. Convocou a big band, então há mais de vinte anos órfã de seu líder, para reinterpretar os arranjos daquela noite de 33 anos antes. Músicos de primeiríssimo gabarito, um dos maiores intérpretes de todos os tempos, um repertório de clássicos. Maquiavélico.





7- Cazuza + Barão Vermelho - "Codinome Beija-flor" (2005)

Uns diriam que foi uma oportunidade de registrar em disco um velho sucesso de Cazuza que ele não gravara originalmente com sua ex-banda. Outros, que é mais uma picaretagem nostálgica travestida de especial da MTV. Eu acho que é meio a meio, e não porque fico em cima do muro, mas porque os dois lados são claros para mim. Mas tudo bem, vai, passa. E mesmo que venha de um CD player, a voz de Cazuza encontrando com a de Frejat soa mais inspiradora do que, por exemplo, o dueto que ele faz com a Simone da mesma canção. Porque Simone, ao contrário do que pensam os gringos, não dá.





6-Bob Marley + Lauryn Hill - "Turn Your Lights Down Low" (1999)

A hoje reclusa Lauryn Hill era a bola da vez há dez anos, quando desfrutava do merecido sucesso por seu disco "The Miseducation of Lauryn Hill", de 1998. E também era a garota dos olhos de Rohan Marley, um dos filhos de Bob. Uma coisa levou a outra e, quando ela menos esperava, já estava gravando um dueto póstumo com o finado sogro. O resultado é uma canção pop razoável, muito mais para o hip-hop temperado com R&B de Hill do que para o reggae de Marley. A picaretagem fica a cargo do uso da voz do ícone jamaicano, que acabou sendo praticamente um sample, e não uma "participação" propriamente dita.





5- Elis Regina + Milton Nascimento - "Golden Slumbers/Carry that Weight" (2009)

Dois anos após o lançamento de "Abbey Road" (1969), Elis Regina gravou uma versão deste trecho do grande medley que encerra o disco e que acabaria servindo de mensagem de despedida dos Beatles. O registro ficaria guardado numa gaveta de estúdio até que, só neste ano, fosse resgatado pelo produtor Marcelo Fróes para a coletânea "Beatles 69", com artistas brasileiros homenageando a transcendental bolacha. E, mais do que desenterrá-la, ocorreu a Fróes chamar Milton Nascimento para um back to back artificial com Elis.

Estávamos diante, portanto, de duas minicanções de Paul McCartney presentes em um dos melhores trabalhos da melhor banda de todos os tempos, interpretadas pela maior cantora brasileira e prestes a ganhar complemento vocal de outro gigante, além de ex-parceiro e beatlemaníaco convicto. Tudo pronto para a geração de um legítimo clássico que só a máquina do tempo conhecida como Pro-Tools pode proporcionar, correto?

Bem... mais ou menos. Percebe-se, logo de cara, o porquê da primeira versão de Elis nunca ter dado as caras. Ficou muito aquém do que se espera dela. E a voz de Milton, meio que perseguindo a da amiga ao invés de criar alguma harmonia notável (e entregando-se, assim, como póstuma), perde-se sobre o novo arranjo. Que, diga-se de passagem, é caidaço. Apesar de toda a emoção relatada pelos presentes no estúdio, este "Golden Slumbers/Carry that Weight" não convence nem o mais ingênuo fã de Beatles ou os mais radicais admiradores de Elis e Milton.






4-Lisa 'Lef Eye Lopes' + TLC e Missy Elliott - "Let's Just Do It" (2009)

As colaborações no hip-hop viraram um negócio tão mercenário que para Missy Elliott, por exemplo, daria na mesma se ela estivesse botando suas rimas no disco de uma pessoa viva. E "Let's Just Do It" é apenas uma das faixas de "Eye Legacy", o recém-editado álbum póstumo de Lisa "Left Eye" Lopes, integrante do grupo de R&B TLC morta em um acidente de carro em 2002.





3-Renato Russo + RPM - "A Cruz e a Espada" (2002)

Para ajudar na promoção de seu revival pela MTV, o RPM forçou a barra buscando a voz de Renato Russo cantando "A Cruz e a Espada", hit da banda lançado nos anos 1980. Como que dizendo, "estão vendo? O cara gravou a nossa música antes de morrer!". Para completar, o trecho foi extraído de "Rock Popular Brasileiro", disco de versões de Paulo Ricardo lançado em 1996. Ou seja, era ele fazendo cover da própria banda.





2-Nat King Cole + Natalie Cole - "Unforgettable" (1991)

Esta não poderia ficar de fora de jeito nenhum. Afinal, foi a gravação pioneira das parcerias somente possíveis com a ajuda da máquina. Ou no mínimo a precursora nas possibilidades de execução simultânea, ao vivo, de uma voz real e outra do além. E também a mais bem-sucedida - o disco "Unforgettable: With Love" vendeu milhões de cópias e abocanhou Grammys. Ao menos o arranjo original foi preservado. Depois desta, nenhum músico morto jamais descansou totalmente em paz.





1-Tupac Shakur + Notorious B.I.G. - Runnin' (Dying to Live)" (2003)

Tupac Shakur foi assassinado a tiros em setembro de 1996, pouco menos de seis meses antes de seu rival Notorious B.I.G. também morrer baleado. Os casos nunca foram resolvidos, mas não faltam indícios para alimentar as teorias da conspiração de que a turma de um esteja envolvida na morte do outro. É inegavelmente uma das lendas urbanas mais interessantes da história da música pop. E ao mesmo tempo a prova cabal da imbecilidade do pensamento gangsta rapper, tão injustificável quanto a violência homicida entre torcidas de futebol.

A fusão de versos de Tupac e B.I.G. presente na trilha sonora do documentário "Tupac: Ressurrection", vai para o trono das presepadas listadas aqui não só por partir de dois mortos. Leva a medalha de ouro principalmente por ser uma fusão forçada, nonsense, bancada por quem só pensa em tirar mais um troco do resultado e que não está nem aí para os assassinatos entre rappers (que volta e meia ainda acontecem). O mash-up da hipocrisia.